Quando
deixamos para trás o bulício insuportável do quotidiano frívolo e mecanizado e
fechamos a porta ao ruído repetitivo e persistente da mente que, diligente
pupila da nossa vontade, pensa sem cessar o que se lhe ordenou, entra-nos porta
adentro o silêncio.
Tão
raro é que a princípio estranha-se. Não é tarefa fácil desembaraçar-nos daquela
sensação frustrante do “falta alguma coisa”. Persistindo nele porém, descobrimos aos
poucos que a tranquilidade que o acompanha desvanece a frustração.
Quase
sem nos darmos conta, o silêncio cresce, cresce e torna-se imenso. Espalha-se
pelo chão, sobe paredes acima, cobre o tecto, preenche cada fresta nas paredes,
cada junção das tábuas do soalho. De tão imenso, transborda janela fora e enche
o mundo. Estende-se por cidades e ermos, oceanos e rios, montes e vales. Está
no ar, na luz, no som. O chilreio e o trovão distante são silêncio. A chuva e
o vento e a onda que rebenta são silêncio. É silêncio a estrela, a galáxia, o
cosmos inteiro. É silêncio a ideia, o pensamento e a palavra. É silêncio a
vida, a existência, a criação.
Só o
silêncio toca o eterno, morada única do ser universal. Terra de ninguém onde o
ego não tem entrada.
