domingo, 28 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Sétima Parte

(continuação)

Other Worlds - Vladimir Kush

O banho
A água banha o corpo. O silêncio também banha. Toma semanalmente (se possível diariamente) um banho de algumas horas de silêncio. Totalmente só e despojado. Sem livros, sem palavras, sem amigos, sem dinheiro, sem inimigos, sem trabalho, sem lazer, sem máquinas nem aparelhos de espécie nenhuma. Sem ruído interno e se possível sem ruído externo.
Totalmente livre. Inunda-te de silêncio, aos domingos ao amanhecer, às quartas ao entardecer, ou quando quiseres, tanto faz. Mas fá-lo.
Toma esse banho que é tão ou mais importante que o banho de água.
Inunda-te de silêncio e de luz. Tu próprio compreenderás.
 
Não
O homem novo não deseja a mudança. Vai mais profundamente, realiza-a.
Diz que não simples e amavelmente a tudo aquilo que o rodeia e que destruiu o homem velho. Sem regras, sem procurar exemplos, e sem dá-los, efectua a mudança em si próprio. Subitamente, como um clarão, serenamente, há uma explosão silenciosa na mente do homem novo. Há uma flexível firmeza e uma paz e alegria que chegaram sem terem sido procuradas entre as múltiplas e torpes maneiras que o homem velho utiliza.
 
Acção
Não importa o que fazes. Mas deve agradar-te. Na própria rotina pode estar o novo, se deste já a necessária voltinha interior, o salto mental essencial.
Vive cada segundo intensamente, ou seja, com atenção. Sem esforço. Serenamente. Não te isoles. Aproxima-te de todos e aceita-os como são, mas tu continua a viver da nova maneira mesmo entre eles. Não temas ser diferente, não temas ser igual. Não temas. Adiante. Salta!
 
Apego
Ofenderam-te. Porque te sentes ofendido?
Não te agradeceram. Porque esperas agradecimento?
Não conseguiste. Porque esperas sempre um resultado daquilo que fazes? Será que não te agrada o que fazes no preciso momento de o fazer?
Não te apegues ao trabalho. Aceita-o e desfruta dele como uma criança e o seu brinquedo.
Não te apegues às pessoas. Aceita-as e desfruta delas. Não te apegues às ideias, não as aceites. Não as negues. Voa muito alto por cima delas.
 
A importância das coisas
Todas as coisas têm importância em função de tornar-nos conscientes e despertos. E as coisas vivem-se somente no despertar. Se não despertares totalmente, não poderás sequer recordar os teus sonhos de quando dormes.
Tudo aquilo que te adormeça ou distraia do que acontece aqui e agora (e não só do que fizeres acontecer) destrói o mais nobre, o mais subtil, o mais essencial do ser humano. Todo o problema que não seja abordado com brandura e atenção traz consigo escuridão, isto é, a perpetuação do problema. Não toleres as discussões, as conversas banais, os comentários, as troças, as reuniões intelectuais.
A compreensão global fará com que te apercebas de realidades que a princípio não poderás suportar, porque o coração é mais lento que o cérebro, porque foste construído com mentiras e conselhos, com informação e opiniões, com comentários e notícias, com excitação e ruídos e porque não cresceste com cada verdade. Mas não feches os olhos, espera calmamente que a luz invada também o coração.
 
Confusão, ignorância, estupidez
O homem mais confuso é capaz de tomar uma atitude esclarecida: a inacção.
O homem mais ignorante é capaz de manifestar as palavras mais sábias e que melhor conhece: “Não sei”.
O homem mais estúpido deixa de sê-lo quando compreende as consequências de um disparate.
(continua)

sábado, 27 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Sexta Parte

(continuação)


Journey Along the Edge of Earth
Vladimir Kush

O começo e o final
 
Difunde estas palavras ditadas pela luz interior. Multiplica-as pelos seus próprios sons. Começa a fazê-lo. Di-las novamente com o seu próprio sentido na tua própria linguagem. Mesmo no silêncio. Acaba com as frases ditas só para passar o tempo. Acaba com as frases pensadas só para preencher os teus pensamentos. No silêncio da tua mente, a luz falará.
Acaba com as acções estereotipadas ou automáticas.
Estas palavras não são conselhos nem ditam regras. Deixam-te totalmente livre para que, com a tua própria atenção, descubras toda a verdade que te rodeia e que desprezas sem saber. Compreende simplesmente que estás semiadormecido, e esse será o começo e o final do despertar. Apercebe-te do que fazes, mesmo que o consideres de pouca importância. Apercebe-te naturalmente, sem tensão. A cada momento. Agora mesmo.
 
É quanto basta
Precisas de força, firmeza e flexibilidade, mas não para suportar melhor esta situação de comodidade apetecível, de rodopio absurdo, de ruído, de conversas insignificantes, de competitividade esmagadora.
A força utilizada para a tua adaptação já cumpriu a sua tarefa: produziu o homem velho. Olha-o com os olhos iluminados pela atenção serena. É quanto basta.
Ouve-o atentamente: é quanto basta para deixar transparecer o novo sentido que a tua firmeza tem.
Despojar-te. Abandonar-te. Saltar. Embrenhar-te no silêncio sem sentir autopiedade. Dar uma volta de 180° ao teu pensamento e às tuas actividades comuns de cada momento. Começar de novo. Sair dos escombros do passado para a luz menosprezada do presente é flexibilidade.
É quanto basta.
 
O umbral
Dizem-te para que serves, para que estás no mundo, o que deves fazer e como deves desfrutar. Mas isso deve ser pensado e decidido somente por ti próprio. Podes fazê-lo. Não temas. Acaba com os cartazes, os anúncios, os conselhos, a rádio, os jornais, a televisão e com qualquer outra coisa que te diga o que fazem os outros (comentários e notícias) e o que deves fazer ou como comportar-te em diversas situações (conselhos, propagandas, etc.). Acaba com o ruído. Destrói os limites do espaço e do tempo. Do tempo mental mais que do tempo do relógio. Não te intrometas na vida alheia, que é toda a vida que palpita fora da tua pele.
Impede relaxadamente que se intrometam na tua própria vida. És livre. Vive a tua liberdade o mais plenamente que possas. A comunhão é do homem novo, o intrometimento é do homem velho.
Deixa viver a liberdade alheia. Não aceites argumentos velhos nem conceitos repetidos que pretendam suavizar esta grande e indiscutível verdade que é tão-somente o umbral da porta da luz.
 
O corpo
Abandonaste as coisas que interferiam na actividade do teu corpo e da tua mente: álcool, tabaco e outras drogas, excesso de alimentos, conversas vãs, excesso de sons, e tudo aquilo que tu mesmo descobriste. Mas essa é uma parte muito pequena do processo de mudança. Não te detenhas nos esforços que te exigem as pequenas renúncias.
Que não haja esforço, abranda. Não pares no primeiro pequeno passo, o de libertar o teu corpo. Há um oceano de luz que te espera. Salta da tua escuridão. Lança-te no vazio.
 
Exemplos
Não peças exemplos de homens novos porque todo o exemplo limita a verdade ou deforma-a. Poderás reconhecer os homens novos que te rodeiam e ainda os que morreram quando tu próprio fores um. Hoje. Compreende de forma global. Abre a tua mente, serena e valentemente à luz. Não dês apreço à tua tristeza. Não a respeites. Não vivas a vida dos outros. Não vivas em segunda mão. Morre para os mexericos. Vive a tua própria vida. Os exemplos não podem ser mais do que velhos. O homem novo de ontem, hoje é velho e o seu caminho não é o teu. Não pode existir um exemplo que não seja do passado, mesmo que tenha surgido só do teu pensamento. Ignora os exemplos.
Não peças nada, entrega-te com tranquilidade. Pensa-o tu mesmo. Fá-lo tu mesmo. Agora. Compreenderás sem palavras.
 
(continua)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Quinta Parte

(continuação)

Born to Fly - Vladimir Kush

Culpas e cumplicidade
Não te sintas culpado. Começa tudo de novo, como num nascimento. Ouve com atenção o homem velho. Compreende o que te diz. Com a tua nova mente, desperta e serena, poderás morrer totalmente para o que te disser e não ser cúmplice do que ele fizer.
Não procures desculpas e motivos para te justificares. Não te detenhas em conversas intelectuais e argumentos astutos, enquanto as tuas acções continuam a ser as velhas. Quem já tem consciência da sua consciência como tu, não tem outro remédio senão dar o pequeno grande salto e transformar-se no Ser Total. Agora mesmo, completamente novo. Acima da dor, e sem respeitar a tua dor, que com dor se morre e com dor se nasce.
 
Homem velho
O homem velho tem qualquer sexo ou qualquer idade. Engavetou o tempo e dividiu a terra e o mundo. Tem regras fixas, moral aceite ainda que só a respeite na aparência, pertence a alguma igreja, ou a algo que a substitua, embora ignore o que é a religião e a religiosidade.
Tem partido político definido, seguro de vida, um trabalho que o aborrece, opiniões, bens, conta bancária e cartão de crédito, e, desejando assegurar a sua vida, vive semimorto; aprende a matar e a morrer, tem os inimigos que alguém lhe assinala e vai à guerra quando lho dizem, mas não sabe o que é a vida, pois raras vezes lhe falaram seriamente dela. Prefere medalhas de honra e honras póstumas de filhos heróis, e não filhos vivos em qualquer condição. Foge do silêncio e da quietude, porque neles se pode encontrar com o seu verdadeiro rosto e ver-se tal como é, o que o assusta. Mas teme mais a possibilidade de mudar totalmente de um momento para o outro.
Dá somente se receber algo em troca.
Sorri se com isso assegurar algum benefício futuro. Só se ama a si mesmo, e finge amar quando o amam. Entretém-se a consumir: roupas novas, televisão massificada, jornais, conversas sem sentido, a chamada “acção política”, o cinema, a opinião do próximo e a psicanálise quando pode pagá-la.
Vai adiando. Julga estar cómodo embora secretamente esteja insatisfeito e seja terrivelmente infeliz.
 
Tu próprio
Sai para caminhar, contempla os olhos de todos aqueles que partilham o teu próprio destino de viver e morrer.
Se não esmoreceres na tua atenção lassa sem pressa e sem pausa, até numa bela jovenzinha poderás identificar o homem velho em decomposição. Aceita-os e segue o teu caminho. Não és herói nem desejas sê-lo, basta de heróis, e não pretendes mudar ninguém nem intrometer-te. Mas em ti e a partir de ti gera-se a regeneração da espécie humana. É suficiente aceitar o salto. Subitamente deixar de ser, e novamente ser o mesmo, com o mesmo nome, mas ser novo. Tu Próprio.
 
Despertar
Desperta. Estás adormecido pelas distracções quotidianas ou semanais. Pelas palavras vãs. Pelo ruído. Com o teu cérebro iluminado compreenderás num só momento para onde se dirige o homem velho. Com essa mesma luz verás a urgente necessidade de dar uma volta às tuas palavras e às tuas acções de cada instante. Encontrarás também sem dúvida a força serena, sem que te admires, para que a tua transformação seja estável. Não deixarás dentro de ti nenhum elo da corrente do passado, nem a tua pátria, nem o teu nome se necessário for, para acabar com os cercos e as bombas e a persuasão para a morte.
Em teu redor darás forma, pouco a pouco, ao mundo novo, aquele que se constrói a cada momento e que talvez nunca se veja, cheio de Vida; ao lado do homem velho, e mesmo sem ajuda, porque a tua nova luz fez-te tão forte que nunca mais poderás acreditar que nasceste fraco e que não podias fazer o céu na terra.
Não esperes que seja o teu irmão, a tua esposa, o teu companheiro, o teu filho, o teu professor ou o teu vizinho a começar. Pensa-o tu. Di-lo tu. Fá-lo tu próprio. É urgente que renasçam em ti próprio, a cada instante, os homens novos de toda a história. É urgente que oportunamente mates todos os homens velhos que inesperadamente surjam do íntimo do teu próprio ser.
(continua)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Quarta Parte


(continuação)

Waiting for Luck - Vladimir Kush

Interpretação intelectual

Estas palavras, como qualquer coisa que exista, podem ter um imenso significado para quem realmente abriu os olhos e tem a mente e o coração bem despertos. Estas mesmas palavras, escolhidas, memorizadas ou interpretadas meramente com o intelecto, carecem de todo o valor. Não analises estes parágrafos. Tenta compreender subitamente a sua derradeira essência. Mesmo aquele que não lê estas palavras, mas que abriu a torrente infindável e profunda da sua vigilância lassa, é capaz de compreender. Mas se estas palavras servem para que aumente o brilho da tua luz, bem-vindas sejam.
Serenamente, com um suave sorriso interior, contempla tudo: verás qual é o lugar que ocupas dentro desse grande conjunto, e surgirá a tua acção essencial, verdadeira, que não poderá ser uma atitude vulgar, fugaz e superficial. 
 
Agora mesmo
Desejas começar de novo a tua vida. Pois não esperes mais. És tão capaz como qualquer outro ser humano.
Diminui a tua porção de alimentos para metade. É suficiente. Que o teu alimento seja natural. Caminha o dobro. Faz algo com as mãos. Destrói tudo o que o teu cérebro está a produzir e volta a construí-lo totalmente de novo.
Fala o menos possível, especialmente de ti mesmo e da vida privada das outras pessoas. Não te intrometas na vida daqueles que te rodeiam. Vive a tua própria vida e deixa que cada um viva a sua. Não és dono de ninguém e ninguém é teu dono.
O amor não nos dá nem direitos nem deveres.
Ouve toda a gente, não só com os ouvidos mas também com os teus sentimentos, isto se não permitiste que esta torpe civilização tos destruísse (tanto os ouvidos como os sentimentos).
A sós, olha frequentemente para o horizonte: assim não esquecerás que o céu ainda se pode unir à terra. Não pretendas ver nada, olha atenta e espontaneamente para tudo aquilo que for surgindo em cada um dos teus momentos. Não procures ouvir nada, apenas ouve com tranquilidade, sem fazer parte da confusão, das bisbilhotices, do ruído, e da frivolidade trivial que te rodeia. O silêncio também te pode curar.
Pensa se tudo o que possuis é realmente necessário para a tua sobrevivência.
Pensa por que não és capaz de sentir prazer com a simples satisfação das tuas necessidades. Pensa, uma vez que seja, muito seriamente se algo do que fazes (ou a maneira como o fazes) está a destruir a tua serenidade e a tua alegria. Lembra-te que a tua tranquilidade e a tua capacidade de desfrutar são muito importantes para o bem-estar de todos os que te rodeiam.
Aceita todas as pessoas tal como são, não pretendas mudar ninguém, mas não temas ser diferente delas. Não procures causas para sentir alegria em estar vivo. Tudo pode ser começado de novo. Onde? E onde mais senão dentro de ti mesmo?
Força! Podes fazê-lo. Podes fazê-lo! Não argumentes. Dentro do próximo minuto podes vir a transformar-te num Ser Humano.
Vamos! Salta!... Salta agora mesmo! 
 
Confusão e conselhos
Ouviste, certamente, muitas vezes conselhos iguais ou parecidos a este: “Olha só que monstros, como se destroem! Como se devoram uns aos outros! Nunca sejas como eles, e quando vires um, destrói-o e devora-o!”. A confusão é polimorfa. Pode tomar o aspecto de qualquer coisa. Somente a tua luz interior, desmascarada somente por ti próprio num momento de coragem, pode identificar a subtileza da confusão e das suas múltiplas aparências. Já se disse demasiado para enriquecer a confusão. Só resta recorrer implacavelmente ao silêncio. Só um homem independente é capaz de amar. Por isso, para amares a tua família, torna-te independente dela. E para amar o teu cônjuge, também deves conceder-te independência.
Só um homem livre é capaz de Saber. Mas para saber tens que libertar-te de todo e qualquer cerco, doutrina ou instituição. À acção (ou inacção) essencial e ao pensamento (ou falta de intelectualização), que são a essência da vida sã, alegre e verdadeira, os confusos chamam-lhes “fanatismo”, “loucura” e muitas outras coisas. 
 
Por causa alguma
A vida é algo assim como um milagre. Cada segundo da tua vida é uma quase incrível maravilha e esse mesmo segundo é alimentado por essa tua luz, quer a vejas quer não. E não outro segundo: este mesmo instante. Vive-o, não o mates com sons nem palavras. Não o escureças nem sequer com a luz. Não largues por causa alguma a oportunidade de viver este instante plenamente. Ilumina-te. Renasce. És absolutamente capaz de o fazer. Aqui mesmo. ! Não deixes vazio o teu caminho para a Luz nem um só segundo. 
 
Semelhanças
O homem velho tem as mesmas capacidades que tu. A mesma energia potencial, quase a mesma arquitectura básica, mas ele esmagou tudo isso a cada segundo da sua vida, com as distracções da realidade, com a falta de atenção, aceitando sem dúvidas as regras e a moral imperantes, perpetuando um passado absurdo, limitando o espaço, limitando o tempo, limitando-se. Não sufoques isso que está dentro de ti. Permite que cresça. Morre agora mesmo, em vida, e volta a nascer no próximo instante. E a cada segundo da tua nova vida, dá vida a todo o teu potencial.
Ilumina-te. Expande a tua essência.
 
(continua)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"O Manual do Homem Novo" - Terceira Parte

(continuação)
 

Bound for Distant Shores - Vladimir Kush

 
Ajuda
 
Quando te sentires impulsionado a ajudar, pára. É muito provável que a tua intenção surja de um obscuro sentimento de superioridade: tu, superior, aquele que dá; o outro, subtilmente menosprezado, recebe.
 
Nessa ajuda deliberada existe um espaço imenso entre ti e aquele que ajudas, mas quando te sentes em comunhão com todos, e existe amor, surge uma ajuda que não procuraste, que não tem objectivo, e à qual nem te passará pela cabeça dar-lhe o nome de “ajuda”. Quando esse espaço imenso desaparece, como acontece entre amigos verdadeiros, surge a ajuda sem nome, que não se procura, não se pede, nem se outorga, a ajuda sem espaço e sem pausa e que não tem sequer a recompensa de uma satisfação momentânea.
 
Acaba com os assuntos (o múltiplo condicionamento)
Os astros, os seres humanos, os alimentos, as radiações, as ideias, o relógio, o dinheiro, mil e uma coisas te influenciam, isto é, alegram-te ou entristecem-te, exaltam-te ou deprimem-te, dão-te vida e saúde ou doença e morte.
 
Mas há um estado do ser em que estás livre de tudo isso: quando te tornas independente do passado e do futuro, quando, ainda que existam, não te afectam os planos ou as lembranças. Um estado em que o tempo não existe: quando, cheios de vida, damos o salto súbito e intemporal para a eternidade.
Então libertas-te do cosmos, dos homens, das mulheres, das ideias e das coisas. Então és Um com tudo isso, e esse vazio enche-se, sem pausa, do prazer de uma profunda e vibrante independência total.
 
Activar-se
Une-te sem perder o teu próprio ser. Aceita os outros totalmente, sem procurar causas. Surpreende aqueles que te rodeiam com ternuras imprevistas. Olha para o relógio mas com a mente liberta do tempo. Entra em tua casa sem te preocupares se é tua ou não. Sorri.
 
Não sejas um grande garfo, o centro das atenções e não estejas sempre disposto a receber passivamente elogios, fama, lucros, alegria e inclusivamente amor. Activa-te.
Podes fazê-lo sozinho. És absolutamente capaz. És forte, não esmagues o teu potencial latente com o atractivo abandono a esta civilização que nos destrói subtilmente e nos distrai grosseiramente com os jornais, a TV, a rádio, o trabalho febril e desagradável, as modas (o mais recente e o novo), os alimentos de grande variedade e quantidade mas de escassa qualidade, tal como a literatura. Tu podes prescindir dessas falsas necessidades, tu és capaz.
Não permitas que esmaguem essa luz que não escolhe, não analisa, não interpreta e não acumula, que está dentro de ti, continuamente, sem pausas.
 
Trevas e distracção
As trevas que latejam dentro de ti são velhas e profundas.
 
Acompanham-te desde sempre e crescem contigo desde o teu nascimento.
As trevas que te rodeiam, ainda que muitas vezes te pareçam ser a luz, juntamente com as que persistem no teu interior, estão em contínua expansão para invadir e ocultar a luz que arde na essência do teu ser. É por isso que um minuto de desatenção equivale a muito tempo de escuridão. Não te distraias. Vigia constantemente, em cada instante. Observa tranquilamente cada voz, cada som, cada silêncio. Tudo aquilo que te rodeia em cada momento. Verás tu mesmo e somente tu, como tudo passa a fazer parte da tua luz interna, essencial e permanente.
 
Bem-estar e professores
O mais importante é que te sintas bem no íntimo do teu ser.
 
Necessitas de uma atenção relaxada e espontânea, de uma tranquila e contínua vigilância para identificar as coisas que verdadeiramente se opõem ao teu real e profundo bem-estar, que é uma das bases mais firmes do bem-estar de todos os que te rodeiam. Se não abandonares essa contemplação continuada, não poderás enganar-te. Não precisas de quem to faça ver. Não precisas de professores nem de conselheiros. Não esperes que a tua força chegue do exterior, tu podes fazê-lo: és absolutamente capaz, não acredites em quem te diga que és fraco ou louco. Não duvides. As dúvidas produzem atraso. Dá o salto agora mesmo. Desfaz o teu coração, as tuas mãos e o teu cérebro para poder reconstruí-los à tua própria maneira. Não discutas, começa a viver de uma vez por todas a tua própria vida. Os gatos, os milionários, o trabalho agradável, o lazer silencioso, o vento, os mendigos, os teus amigos, a lua, os sorrisos, entre muitas outras coisas, serão os teus professores. Tu próprio verás.
 
Se abrires os teus olhos, a tua mente e o teu coração, não necessitarás de interromper o teu despertar.
(continua)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

"O Manual do Homem Novo" - Segunda Parte

(continuação)



Atlas of Wander - Vladimir Kush



Palavras
Chega de argumentos. Chega de discussões intelectuais. Chega de conversas estereotipadas e banais. É preciso estar muito atento para não chegar sequer a mencionar o velho, para não se emaranhar no velho nem sequer com a palavra.
 
Palavra pausada, com ritmo humano, não com o ritmo frenético das máquinas que te rodeiam. Palavra amável, sem agredir ninguém porque aceitas todas as pessoas tal como são, que é a melhor maneira de permitir-lhe que mudem, já que nada mais podes fazer por elas. E nada menos também. Aceitá-los. A mudança é pessoal e da conta de cada um. A mudança não te separa de ninguém. Une-te a toda a gente.
Se aceitas o teu amigo, a tua esposa, marido ou filho tal como é, permites-lhe ser sincero. Ser ele mesmo (ou ela). E ninguém pode transformar-se se não souber primeiro quem é e como é. O esforço do verdadeiro valor social não reside em fazer-se ouvir, mas sim em saber permanecer, apesar de si mesmo, dentro do silêncio criador.
 
Energia
Pouco alimento. Alimento menos elaborado e mais natural. Muita serenidade. Toda a alegria que surja sem procurá-la. Não penses senão no que te acontece neste momento, no que fazes neste momento, no que te dizem neste momento. Exercita-te incansavelmente na muito difícil arte do silêncio amável. Reunirás assim a imensa energia de que precisas para tomar completamente consciência do que acontece. Vive a cada instante aqui e agora.
 
 
A transmutação
Na crise total, regida pela completa confusão, cada verdade foi transmutada para servir os astutos. Esse astuto é o homem velho, aquele que sabe gratificar os seus desejos, sejam eles quais forem.
 
O homem novo é inteligente. O homem novo compreende. O mundo novo é o da compreensão e nele não há lugar para a velha astúcia que decai e morre, porque a astúcia é tangencial à realidade. No mundo novo, não se transmutam as realidades. A realidade enfrenta-se e compreende-se, acima da dor e do prazer. Acima dos desejos individuais ou colectivos, pequenos ou grandes.
O homem novo compreende cada verdade, porque só a inteligência sincera penetra no âmago da verdade. Menospreza com alegre tranquilidade as interrupções no seu caminho. O homem novo precisa de aprender a estar só e triste no centro da realidade. O homem novo precisa de aprender a estar só e alegre no silêncio sem pausa da realidade. E a partir dessa solidão, que não é tal, intui a comunhão consigo mesmo, com os outros homens e com tudo.
 
Trabalho e recreação
Quando tiveres feito da Religião, da Política, da Técnica, da Ciência, da Psicologia, da Economia, da Recreação, da Amizade, etc., uma só e única coisa, terás dado o passo mais decisivo para terminar com a confusão e o conflito crescentes no nosso planeta.
 
Olhar realmente a glória diurna ou nocturna do céu, ou a beleza de um rosto, ou simplesmente fazer qualquer coisa, morrendo nesse instante para qualquer outra coisas que sejas ou tenhas sido, que faças ou tenhas feito, é proporcionar crepitante fogo a cada instante da tua vida.
O trabalho realizado com prazer, como uma constante recreação, será um trabalho inevitavelmente bem realizado e essa é a mais pura e honesta política, a melhor higiene mental, porque pertence a cada momento e à própria eternidade. Olhar, trabalhar, escutar, caminhar, viver dessa maneira a cada momento e não consentir sob pretexto algum viver de outra maneira, é a melhor contribuição para a economia do planeta, para a saúde mental e física, para a harmonia do mundo que é o reflexo final da nossa própria harmonia. Sê inflexível contigo mesmo para que não te impeças de viver dessa forma flexível, solta, aberta e eficaz.
Porque esperas sair do trabalho para te distraíres ou fazer política, quando ambas, distracção e política, existem no preciso instante em que se trabalha plenamente? Se o teu trabalho não pode ser assim, recreativo e total, isso significa que deves mudá-lo.
Se as tuas relações não são místicas, recreativas (o que não significa divertidas), saudáveis, harmónicas, amistosas, é fundamental que ponhas a tua essência à frente do espelho, porque te falta misticismo, recreação, saúde, amor e harmonia, porque estás confuso e em conflito.
A diversão não é mais do que uma tentativa de fugir transitoriamente de uma realidade que de alguma forma não nos agrada.
A recreação é enfrentar a realidade a cada momento de uma maneira total e coerente, é criar continuamente, e portanto, o gosto e o desgosto não têm cabimento. O que fazes ou és não pode agradar-te ou desagradar-te uma vez que se queima a cada instante no fogo da vida única e completa. Uma vida recreativa.
(continua)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Mudança – “O Manual do Homem Novo”, Intróito e Primeira Parte



Sunrise by the Ocean - Vladimir Kush

 
Quem se tem dado à maçada de me ler poderá certamente ter constatado que sou apologista da mudança individual. Para mim, todas as grandes mudanças exteriores têm forçosamente de nascer de uma profunda mudança individual. É a mudança qualitativa interior de cada um que dá origem ao desenvolvimento positivo no mundo exterior. É o pensamento do indivíduo singular que origina o pensamento colectivo. E a acção é sempre precedida pelo pensamento. Há que ter cuidado, por conseguinte, com o que se pensa, pois o pensamento que se concretiza na acção individual é sempre, sem excepção, um componente do pensamento e da acção globais.
Há uns anos atrás encontrei na internet um pequeno livro, em língua espanhola, intitulado “El Manual del Hombre Nuevo”. O título despertou-me a atenção e li-o. Depois voltei a lê-lo, uma e outra vez. É de uma simplicidade gritante, no entanto alcança uma vertiginosa profundidade.
Obviamente, os que entendem a vida como um mero percurso do nascimento à morte, e fazem questão de vivê-la futilmente não encontrando nela qualquer objectivo senão o impulso momentâneo ditado por uma sociedade escravizante, frívola e vazia, jamais lhe descortinarão a profundidade e verão nele apenas uma amálgama de palavras sem sentido. Mas aqueles que vêem a vida como um propósito sublime, que sabem que não são meros piões num jogo de xadrez fortuito e caótico, que reconhecem em si próprios um dever intrínseco para com ela, verão em cada palavra sensatez, discernimento e sabedoria.
O livrinho, na altura, era de autoria anónima e circulava livremente na internet. No entanto, alguns anos depois, vim a saber que o seu autor é o Dr. Feldman González. Tendo entretanto verificado que a obra continua livremente disponível na net, permiti-me traduzi-lo para português e vou oferecê-lo, ao longo dos próximos posts, aos meus leitores e a todos os meus semelhantes. Faço votos para que as palavras que contém possam ajudar a despertar o “homem novo” que existe dentro de cada um de nós pois o “O Manual do Homem Novo” é, inquestionavelmente, uma apologia à mudança individual!

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O Manual do Homem Novo

Todos, com maior ou menor dificuldade podem entender, mas nem todos o desejam. Vão portanto estas palavras para os que querem entender.
 
Introdução
Estas páginas não têm autor já que pertencem a todos aqueles que conseguiram, pela sua constância, atingir uma unidade com o Pensamento. A sua essência foi extraída do âmbito mental da nova humanidade, daquela energia que se irá encaminhando para cada um de nós: para o homem novo.
 
Estas palavras foram escritas em momentos de iluminação que chegaram, em todos os casos, simultaneamente com estados de relaxamento e atenção (serena vigilância). Deves lembrar-te que as palavras não são importantes em si mesmas, por isso, “os que desejam entender” passarão por entre elas, e assim na sua ânsia de descobrir a luz, descobrirão a que elas ocultam, uma vez que não é a mesma coisa falar do sol e ver o sol.
É mais importante levar à acção um só parágrafo do que ler cem vezes o texto. É essencial pensar que este livro nos fala a nós próprios e que cada coisa que nos diz está relacionada com os acontecimentos deste mesmo dia, por mais importantes ou triviais que os possamos considerar.
Pôr o manual em prática é uma tarefa e uma responsabilidade pessoal e individual aqui e a cada momento.
 
Ser, estar e fazer
Aprender o que é o lazer silencioso. Saber o que é que realmente te agrada. Não desejar ser herói. Simplificar as ideias, aproximar-te da luz. Estar sereno para compreender e aceitar os outros como são.
 
Ser totalmente livre. Forte para estar atento. Comedido para ser forte. Incansável na tranquila intenção de ver. Valente para aceitar a iniludível dor da existência. Implacável na destruição do desejo de te deixares enganar.
Existe para ti um pedaço de céu na terra: aqui e agora.
 
Dizer
Podem ter-te falado com intenção sincera, mas tudo o que te ensinaram é absolutamente mentira. Mentiras que se transmitiram por repetição de boca a boca entre os humanos no decurso de milénios.
 
Salta por cima de tudo isso, sem tocá-lo nem mencioná-lo. Voa por cima de tudo isso com os olhos postos à tua volta e dentro de ti, sem olhar para baixo.
Fá-lo tu. Di-lo tu. Pensa-o tu. Não acredites naqueles que te disserem que não és capaz ou que é uma loucura. Segue sem dúvidas o teu coração e ele dir-te-á onde está a tua verdade. Começa de novo. Não consintas a mais pequena pausa nesta trilha em direcção ao caminhar.
 
Força e esperança
A força do homem é a sua energia psicofísica que lhe permite a atenção a cada instante (e que não é análise) à vida interior e exterior. A debilidade do homem é a perseguição de distracções, excitações e estímulos cada vez mais numerosos. É uma pausa e um atraso indesejável no seu caminhar.
 
A esperança do homem novo está no libertar-se das aquisições, do consumismo, da experiência do homem velho e das guerras do homem velho (sejam conflitos mundiais, nacionais, familiares ou os próprios e íntimos de cada dia).
A única opção autêntica para o homem novo reside no recomeçar tudo e atrever-se mesmo sem esperança.
(continua)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Corcel


White Horse Wind - Marcia Baldwin


De vez em quando é preciso parar. É preciso consolidar propósitos, espanar recantos, cortar pontas soltas. Uma pausa na rédea solta do pensamento é a diferença entre manter a lucidez ou enveredar pela insanidade global. O ruído e o movimento do dia-a-dia podem parecer um fogoso e belo corcel galopando ao sabor de atractivos e contagiantes ventos. Mas há que saber puxar as rédeas a tempo, não vá o belo animal tomar o freio nos dentes e levar-nos desenfreadamente por caminhos sombrios e tortuosos.
Uma pausa tranquila sob a sombra da árvore da percepção e do discernimento, o corcel bem atado ao seu velho e possante tronco, um entrecerrar dos olhos para que a luz exterior não ofusque a que de dentro vem chegando, é tudo o que é preciso para sair da influência destrutiva do desabrido cavalgar quotidiano. Arrestado o pensamento, abafada toda e qualquer palavra que teime em expressar-se, numa entrega incondicional e profunda ao grande silêncio e a uma muito desejada solidão, surgem então um poderoso e estático movimento, uma assombrosa e construtiva inacção, um existir inominável, que branda e firmemente renovam e fortalecem as fundações originais.
Para lá do sonho e da ilusória realidade do comum viver, ergue-se, do nada e no nada, toda a sustentação do ser…

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Barbárie



Há seres humanos absolutamente ignóbeis. Têm uma tal baixeza moral, uma tal ausência de escrúpulos, uma tal vileza entranhada, que compará-los aos animais seria subestimar estes e sobrestimar aqueles.
Talvez já não reste mais nada que esses seres execráveis não façam por dinheiro. Já mentem, já enganam, já manipulam, já roubam, já torturam, já matam. Pouco mais lhes deve faltar. E quando descem assim tão baixo, quando a ignomínia e a crueldade lhes parecem virtudes a exaltar perante o altar do deus-diabo-dinheiro-poder, esses seres, de humanos, já nada têm. São apenas uma estrutura de ossos e órgãos e tecido que funcionam por instinto, têm um cérebro mecanizado e animalesco cujo único e supremo objectivo é a total dependência do vil metal. Podem ter boas falas, maneiras correctas, ser até corteses e amáveis. Mas tudo isso são apenas fúteis adornos que ocultam uma natureza astuta, obscura, abominável, predadora.
Lamentavelmente, os exemplos deste tipo de seres são profusos. Hoje conheci e dei a conhecer mais um elucidativo exemplo:  http://aventar.eu/2012/10/18/campanhas-de-marketing-superagressivas-ou-fraude/comment-page-1/#comment-78169.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dias Internacionais? Dias Mundiais?




Mas quem teriam sido os energúmenos que inventaram tal aberração? E quem serão as bestas que, ano após ano, alimentam semelhante estupidez? Um dia para lembrar a erradicação da pobreza? O dia mundial da alimentação? Só se for para chamar mais a atenção para os exageros maricas de uma alimentação gourmet, ridiculamente chamada saudável e estupidamente encarecida pelos profusos e bem disfarçados interesses financeiros que por detrás dela pululam. Mas será que toda a gente emparveceu? Mas afinal, até que grau de absurdo e de desumanidade conseguirá chegar o ser humano?
O homem existe na Terra há milhões e anos. A fome é, desde que temos consciência histórica, um flagelo que afecta a humanidade. Existem registos e evidências históricas de que a fome sempre tem ensombrado o percurso evolutivo do homem. E eis-nos no presente, tecnológica e cientificamente mais evoluídos, desfrutando de importantes avanços em áreas chave como a medicina e a física, e rodeados de todo o tipo de comodidades e de geringonças electrónicas. Temos paspalhos de jeitos hollywoodescos a brincar aos duplos da sétima arte que são generosamente amparados na sua estupidez pela tecnologia, apenas para bater recordes. Temos fêmeas desmioladas a serem assistidas pela tecnologia, na área da estética, que metem silicone no corpo por um lado e pelo outro tiram gorduras através do asqueroso processo da lipossucção. Ah, e temos também as unhas de gel, com direito a escola própria e consequentes “licenciaturas”, “mestrados” e “doutoramentos”! Temos também a manipulação genética dos alimentos, e a produção massiva de animais para abate, aos quais se têm vindo a proporcionar condições cada vez mais confortáveis (gaiolas mais espaçosas e arejadas) para minimizar os efeitos traumáticos.
Ora, tendo nós tudo o que acabei de enunciar, o que demonstra inteligência e engenho (salvo na parte dos saltos para quebrar recordes, os silicones, as unhas de gel, os alimentos geneticamente manipulados e a exploração desumana dos animais!) e continuando nós, século após século, a “tentar” erradicar a fome pensando nisso um dia por ano, ou mostrando como se deve comer saudável, também um dia por ano, só consigo tirar uma conclusão: nós não queremos erradicar a fome! Nós continuamos a construir a nossa felicidade sobre o sofrimento de milhões de seres humanos! Nós somos tão culpados como o são aqueles que fazem da fome um negócio, que transaccionam o sofrimento alheio como se de uma mera mercadoria se tratasse! A fome, longe de ser uma genuína preocupação dos poderosos e dos filantropos, é inquestionavelmente um filão a explorar para o enriquecimento dessa minoria.
Por isso, caro semelhante, pense profundamente nas suas atitudes, reflicta intensamente nas vidas ceifadas a cada segundo pelos monstros que fomentam a fome. Em vez de encher sacos em hipermercados ou enfardar comida dita saudável nos dias em que o mandam fazer isso, pondere na quantidade de coisas inúteis, fabricadas por mãos inocentes em jornadas de vinte e quatro horas de trabalho e pagas com uma malga de arroz, que a nossa dita sociedade “civilizada” nos induz a comprar!
A fome não se erradica com dias mundiais ou internacionais, nem com campanhas, nem com similares patetices. A fome erradica-se quando se erradicar a pobreza de espírito enraizada no coração humano!

domingo, 14 de outubro de 2012

Queixam-se de quê?




Acabei de ler o último post do meu amigo voza0db no seu esplêndido blogue.
Tenho constatado que as pessoas ficam ofendidíssimas quando se lhes diz que ir para a rua protestar (ou ouvir uma musiquinha, como foi o caso desta última manifestação!) de nada adianta. Ofender-se-ão porquê? Será porque são incapazes de vislumbrar outras soluções? Será porque intimamente precisam de uma multidão que consolide a razão que pensam ter? Mas afinal onde está essa razão? Andar em rebanho a balir em coro não é, nunca foi, sinónimo de razão!
A união que se pretende não se obtém de um ajuntamento cego de massas interiormente divergentes mas sim de uma consciência individual madura e direccionada para uma sustentabilidade global.
A grande maioria das pessoas que se indignam em público sempre teve o mesmo comportamento em privado. Insistem em repetir indefinidamente os mesmos erros achando que algo exterior a elas, um milagre pois, há-de resolver a situação só porque estão indignadas.
Por que não um exercício individual de pensamento, uma análise individual e conscienciosa à raiz dos males? Por que não procurar uma solução na diferença em vez de insistir na destrutiva repetição de velhos comportamentos divisores e comprovadamente errados?
Já cansa este ritual sucessivo de maus governos e indignações inertes. Já aborrece este ziguezaguear masoquista entre dois partidos como se nada mais existisse. Já enjoam a memória curta e a ingenuidade lamentável dos protestos de rua.
Meus caros semelhantes, se continuam a alimentar partidos, nutrindo assim divisões e conflitos, se continuam a prestar vassalagem aos seus representantes com vénias de nariz no chão e salamaleques como se de senhores feudais se tratasse, se continuam a ouvir os discursos políticos como se fossem escrituras, se continuam a seguir o caminho que lhes é imposto e nem sequer se questionam sobre a existência de outros, afinal, queixam-se de quê?
Com franqueza, a paciência tem limites e eu também tenho direito à minha indignação!

 
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