domingo, 14 de abril de 2013

Não me apetece escrever, apetece-me reflectir...


Fotografia de guerreiros samurais da província de Satsuma durante a Guerra Boshin

Não tenho pais: Faço do céu e da terra meus pais.
Não tenho casa: Faço da consciência a minha casa.
Não tenho vida ou morte: Faço do curso da respiração a minha vida e morte.
Não tenho poder divino: Faço da honestidade o meu poder divino.
Não tenho meios: Faço da compreensão os meus meios.
Não tenho segredos mágicos: Faço do carácter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Faço da persistência o meu corpo.
Não tenho olhos: Faço do clarão do relâmpago os meus olhos.
Não tenho ouvidos: Faço da sensibilidade os meus ouvidos.
Não tenho membros: Faço da prontidão os meus membros.
Não tenho estratégia: Faço do “não obscurecido pela sombra do  pensamento” a minha estratégia.
Não tenho desígnios: Faço do “aproveitar a oportunidade” o meu desígnio.
Não tenho milagres: Faço da acção correcta os meus milagres.
Não tenho princípios: Faço da adaptabilidade a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho tácticas: Faço do vazio e da plenitude as minhas tácticas.
Não tenho talentos: Faço do meu expedito entendimento o meu talento.
Não tenho amigos: Faço da minha mente o meu amigo.
Não tenho inimigos: Faço da negligência o meu inimigo.
Não tenho armadura: Faço da benevolência e da rectidão a minha armadura.
Não tenho castelo: Faço da mente impassível o meu castelo.
Não tenho espada: Faço da ausência do ego a minha espada.

                                                             Samurai anónimo, séc. XIV


domingo, 3 de março de 2013

Crónicas da Estupidez

Alimentando a Matriz


As manifestações são sempre um prolongamento da ilusão, uma consolidação da matriz. O que pode a indignação contra a poderosa maquinação dos detentores do poder? E os verdadeiros detentores do poder, acreditemos ou não, não são os governos. Os governos são apenas teatrinhos cujos fantoches são movidos por interesses imensamente maiores. Quase tão iludidos quanto os manifestantes, os governos, acreditando piamente que têm o poder nas mãos, não passam porém de meros objectos nas mãos dos grandes manipuladores. E quem são eles? Ora, quem haveriam de ser?

Afinal, não anda tudo ao mesmo? Os poderosos atrás de mais poder e mais dinheiro. Os governos atrás de mais poder e mais dinheiro. O povo atrás de mais dinheiro para consumir e assim, inconscientemente e obedientemente, alimentar a “filosofia de vida” dos todo-poderosos:

Quanto mais consomes, ó desgraçado, mais trabalhas para poder consumir mais! Quanto mais trabalhas, ó cretino, mais eu ganho! Quanto mais ganho, ó imbecil, mais poder e mais dinheiro tenho! E tu, grande estúpido, continuas a consumir e a querer fazê-lo cada vez mais!



O Pecado das Árvores


O exercício da sensatez e o uso da inteligência vão já sendo raros. A nível do poder local parece então que a imbecilidade atingiu níveis inesperados (ou não!).

Imagine-se que, na cidade da Maia, alguém se sentiu incomodado com as árvores existentes no passeio de uma das principais avenidas. Semelhante incómodo levou essa “pessoa” a apresentar uma queixa na Câmara Municipal da Maia contra as árvores (sim, já sei, parece uma anedota, mas garanto-lhe que não é!).

A Câmara Municipal, que, a bem da verdade, nunca se guiou muito pelo bom senso e pela sensatez, parece ter levado a queixa muito a sério (se calhar, a “pessoa” que se queixou até era uma “pessoa influente”!) e, sem mais delongas, ordena que se abatam as árvores. E afinal, qual era o motivo da queixa? Pois é, pasmem! É que as árvores sujavam os carros de alta cilindrada que por lá estacionam!

Que os donos das ditas viaturas sejam estúpidos, isso compreende-se. Mas o que não se compreende é que uma Câmara seja gerida por cabeças ocas desprovidas de qualquer grau de sensatez!



Os Sapatinhos do Papa


Parece que o ex-dirigente de uma das maiores religiões organizadas – o Máfia-Império do Vaticano – vai abdicar dos seus preciosos sapatinhos. Em vez dos sapatinhos vermelhos sangue, a sua recolha recai sobre uns discretos sapatos castanhos. 

Até aqui, tudo bem. Nada a objectar. Mas esta aparentemente simples escolha traz água no bico:

Não é que os sapatinhos castanhos, além de terem de ser oriundos especificamente de León, México, serão cuidadosamente fabricados com pele de vitelo recém-nascido?

Então! Não fiquem chocados! Todos os crimes, até os mais hediondos, são aceitáveis desde que sirvam o propósito de proteger os calos do papa! Ter humanidade é coisa de pobres!
 

Post carinhosamente dedicado ao meu amigo Voz!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sem Palavras


Poema Visual - Viktor Magalhães

     
      Quem me dera fazer um poema sem palavras
      Todo ele espaço e silêncio e infinito,
      Folhas brancas, luminosas, imaculadas
      Prontas a receber tudo quanto não é dito

      Quem me dera fazer um poema vivo
      Onde crescessem e se multiplicassem as ideias
      Onde a alma do mundo feita belo e grande rio
      Fosse a tinta que me corresse nas veias.

      Se fosse um poema eternamente por escrever
      Todo ele livre e leve como nuvens ao vento
      Sem fronteiras, sem limites, sem idade,

      Não seria o meu poema, seria o de todo o ser,
      Cadinho da vida, momento a momento,
      Tranquila alquimia no fluir da verdade!
 

Carinhosamente dedicado ao meu amigo Vítor!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Jejum e Senso Comum ou a Justa Proporção

 



A propósito de um post do Ricardo Santos Pinto no Aventar, acerca de um livro que recomenda o jejum, eis o que lá comentei e julguei por bem aqui publicar, mais o que me aprouve entretanto acrescentar:
O jejum é uma prática com milhares de anos de existência. Existem registos dela na antiguidade, na história dos mais diversos povos e culturas.
Mas, infelizmente, o Homem, em vez de actuar com senso comum e seguir uma via de evolução inteligente, tendo em conta o que é, e sempre foi, natural, decidiu enveredar pelos caminhos da artificialidade.
Já repararam que, de todos os animais, o Homem é o único que distorce a realidade, artificializa processos naturais, não se contenta nunca com o que é, e cria uma vida de ilusões, de faz-de-conta?
Hoje em dia não ouvimos nem sentimos o nosso corpo. E todas as funções do organismo têm ruídos e movimentos específicos. Para quem está atento, se o organismo estiver são, os ruídos e os movimentos são de determinado tipo e têm uma determinada cadência; porém, se com tendência a enfermar, os ruídos e os movimentos são diferentes, arrítmicos, não habituais. Mas o Homem, na sua ânsia de criação de irrealidades, deixou de ouvir e sentir o corpo, tal como deixou de se ouvir e de se sentir a si próprio!
Um dos resultados, no meio de muitos e bem mais graves, foi o de enveredar por um tipo de alimentação sujeito a modas, tal como os trapinhos! Hoje em dia, quanto mais processado for o alimento, mais é considerado. Ninguém lê os “E” que aparecem nas embalagens, ninguém se dá ao trabalho de se informar sobre todo o cocktail químico utilizado no processamento dos alimentos. Antes pelo contrário: quanto mais industrializada, artificializada, “quimicalizada” e sofisticada for a indústria alimentar, mais o Homem se delicia em orgias gourmet, mais envenena o organismo e mais perde o seu verdadeiro rumo, a directriz nuclear da sua existência, que os antigos tão bem resumiam na frase “Mens sana in corpore sano”. Os conselhos dos sábios de outrora (“Que o teu alimento seja o teu medicamento”, Hipócrates; “Beber diariamente dois litros de água, comer muitas frutas, mastigar os alimentos do modo mais perfeito possível, evitar o álcool, o tabaco e os medicamentos…” As 7 Regras de Paracelso) nem muito remotamente são lembrados.
No lugar da sensatez e da naturalidade inventaram-se métodos e processos que, astuciosamente alardeados como sendo em prol da saúde e do progresso, geram impérios financeiros de que apenas uma minoria usufrui. A maioria, essa, manipulada e estupidificada pelos mil e um conselhos de saúde e nutrição, que segue à risca, e pelos mil e um produtos novos e modernos (e mortíferos), gananciosa e sub-repticiamente tornados indispensáveis, estupidamente arruína a saúde e esvazia a carteira.
Mitos como esse que o Ricardo referiu (comer de 3 em 3 horas) e outros, como a necessidade de beber leite de vaca a vida inteira (o Homem é o único mamífero que bebe durante toda a vida leite de outro mamífero; todos os outros mamíferos param de beber leite após o período de amamentação!) e a de comer carne vermelha para obter proteínas, são “argumentos” astutamente elaborados, porém inteiramente falsos, que constituem o sustentáculo do grandioso império das indústrias alimentares e farmacêuticas.
 “Com papas e bolos se enganam os tolos”: é, pois, vê-los a ingerir coca-cola e hambúrgueres, a comer doces cheios de aspartame e coisas que tais, a mascar pastilhas elásticas e a engolir gomas multicores!
Comer alimentos o mais naturais possível, apenas quando se sente o pequeno incómodo que sugere apetite e em quantidades mais frugais do que abundantes, deveria ser o comportamento alimentar generalizado. Forçar alimentos para dentro de corpo sem que este manifeste necessidade de reposição de energia é uma violência. Comer X vezes por dia, sem disso sentir necessidade, só porque os “entendidos” dizem que assim deve ser, é uma violência. Matar a sede com químicos (refrigerantes, etc.) em vez de com água é uma violência. Matar a fome com alimentos processados em vez de com alimentos naturais é uma violência. Mas comer alimentos naturais e jejuar é seguir os ritmos biológicos, é obter energia com equilíbrio e tranquilidade, é respeitar o corpo e fortalecer a mente.
Bem diferente seria o mundo se o Homem se ouvisse e se sentisse a si próprio!

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Despertares


As palavras serão sempre insuficientes para exprimir sentimentos e acções. Ficarão sempre aquém da intensidade e da profundidade do agir e sentir do homem. As imagens, essas, mostram a realidade nua e crua, e ainda que não descrevam sentimentos, têm por vezes a capacidade de os abalar, despertando-nos do sono da inconsciência.
Só a consciência desperta poderá avaliar com exactidão a sublimidade e/ou a vileza dos sentimentos e dos actos humanos. Só a consciência desperta impulsiona a mudança...





terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Desobrigações


Vladimir Kush

Gostava que me deixassem em paz. Que não insistissem em fazer-me sentir obrigada a algo, seja por meio de palavras, de olhares de reprovação ou de sorrisinhos de escárnio.
Não tenho que ir ao funeral de fulano ou beltrano ou sicrano. Não tenho que engrossar um tétrico aglomerado de enganosos abutres, rostos hipocritamente sorumbáticos, expressões compungidas quase sempre requintadamente escondidas sob óculos escuros. Não tenho por que mostrar às pessoas o que sinto em relação ao morto nem tenho de fingir que somos todos muito unidos e amigos nas “horas de desgraça”. E por que é que a morte há-de ser uma desgraça? A sê-lo, mais desgraça é para quem cá fica, que a saudade por vezes é osso duro de roer. Ou não, se habitarem dinheiros e terrenos no pensamento dos herdeiros. Também não tenho que ouvir o sacerdote, peça chave do dramatismo religioso, que sempre tem o condão de transformar um evento natural num acto lúgubre e sinistro, em que as palavras de uma dita divindade parecem escavar à força um profundo buraco na alma de cada um.
E por que hei-de exultar de alegria com um nascimento? Mais depressa me entristeço. Um novo ser neste mundo decadente, nesta civilização antropocentrista, neste mar de egoísmo e iniquidade, é muito mais um infortúnio do que uma satisfação. Um novo ser que será, desde logo, iniciado na insidiosa arte do viver no faz-de-conta, no quero posso e mando, no vencer a qualquer custo. Um novo ser que terá, desde o berço, o seu pensamento programado, o seu organismo conspurcado, o seu valor intrínseco sufocado, a sua humanidade destruída. Muito menos tenho que ir a baptizados. São violentos. Um pobre ser indefeso, inocente e puro, é submetido a um ritual de iniciação religioso que, a menos abra ele os olhos suficientemente cedo, o tolherá para o resto da vida.
Quanto aos casamentos, a que não vou nem em pensamento, vai a minha preferência para os divórcios. São estes últimos o único laivo de sensatez em todo o processo de encenação vitalícia a que os indivíduos se submetem e a que chamam casamento. O absurdo e o ridículo do acto, desde a preparação à consumação e à vida subsequente, são o que me leva a acreditar que o ser humano, além de revolver-se na mais tosca estupidez, é ainda profundamente imaturo. Casamento é parafernália, é ritual, é tradição, é padrão, é falta de autoconhecimento, de maturidade, de visão global, cósmica. Casamento não é amor, não é prova de amor, não é pilar de suporte para a descendência, não é obrigação nem dever nem devoção. Casamento é negócio. Negócio pessoal, social, político, económico e financeiro.
Tudo, afinal, é negócio. Tudo. O nascimento, a morte, o casamento, o baptizado, a religião, a política, a cultura, a educação. O dia dos namorados e o carnaval, a páscoa e o natal, a noite das bruxas que antes era a véspera de todos os santos, os dias mundiais disto e daquilo. Os aniversários e as bodas de prata e de ouro e de diamante. O amor, o sexo, a solidariedade, a amizade, os princípios, os valores. A ética, a arte, a beleza, a justiça e a fraternidade. As homenagens, os tributos, as celebrações, as comemorações. Tudo é negócio. Até a alma, que é artigo que se vende ao diabo a troco de favores…
De tudo isto me desobrigo. É inútil qualquer tentativa de dissuasão.
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Para lá de impostas fronteiras


Haven - Vladimir Kush

Há que ignorá-las e avançar. Avançar sem olhar para trás. Avançar, apesar de tudo. Caso contrário, é sério o risco de morrermos sem termos alguma vez vivido.
Sim, porque se a vida for simplesmente um palco encenado por tradições cujas origens desconhecemos, e que nem sequer curiosidade nos suscitam; se o cotidiano for apenas uma peça de teatro que se desenrola entre personagens apáticos e fleumáticos, escrita por desconhecidos que se ocultam nos bastidores; se o pensamento for tão só um espaço fechado, qual caverna de Platão, onde a plateia permanece num perímetro de segurança estrategicamente instalado, a salvo de ideias virgens, de extrapolações fantásticas e de tomadas de consciência; então, está-se morto para a vida!
Mas, como se ignoram os limites impostos, era após era, com a pérfida e egotista subtileza da malignidade imperante? Como se apagam os estigmas seculares marcados na mente, a ferro e fogo, pelos dogmas religiosos, pelas políticas simuladas, pelas mentiras convenientes? Como se desconstroem pensamentos e convicções, ideias pré-concebidas, ideais cristalizados, crenças e dogmas, leis e normas e regras que, na sua aparente universalidade, tão-somente servem desejos e situações elitistas e específicas?
Como? Transpondo fronteiras, eliminando obstáculos, questionando incontestabilidades, desmiuçando o que se toma como certo, esboroando até ao nada impedimentos gerais e pessoais, ignorando miragens e seduções. Começando de novo, sozinhos, por nós próprios, a partir do zero, porque tudo o que hoje temos é de lavra e pertença de outros. Levando a sério a coragem que nos inflama o coração sempre que sentimos, ainda que ao de leve, qualquer ínfimo fragmento da Verdade. Rumando em direcção ao desconhecido, tão despojados quanto pudermos, depois de haver enterrado o medo que sempre nos acompanhou antes de tomarmos posse e pulso da nossa própria vida.
Para lá de impostas fronteiras, de horizontes fictícios, existem vastidões inexploradas, imensidades à espera que delas tenhamos consciência. Para lá dos estigmas e dos pensamentos e conceitos estereotipados, existem, ao nosso inteiro dispor, possibilidades infinitas. Possibilidades de pensamento, de consciência, de criação.
Para lá de impostas fronteiras, longe de repetições e propagandas, na mais completa nudez de mente e alma, talvez encontremos a tão almejada resposta à mais fundamental das perguntas: Quem sou eu?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Hora do Silêncio ou a Aventura da Solidão




Quando deixamos para trás o bulício insuportável do quotidiano frívolo e mecanizado e fechamos a porta ao ruído repetitivo e persistente da mente que, diligente pupila da nossa vontade, pensa sem cessar o que se lhe ordenou, entra-nos porta adentro o silêncio.
 
Tão raro é que a princípio estranha-se. Não é tarefa fácil desembaraçar-nos daquela sensação frustrante do “falta alguma coisa”. Persistindo nele porém, descobrimos aos poucos que a tranquilidade que o acompanha desvanece a frustração.
 
Quase sem nos darmos conta, o silêncio cresce, cresce e torna-se imenso. Espalha-se pelo chão, sobe paredes acima, cobre o tecto, preenche cada fresta nas paredes, cada junção das tábuas do soalho. De tão imenso, transborda janela fora e enche o mundo. Estende-se por cidades e ermos, oceanos e rios, montes e vales. Está no ar, na luz, no som. O chilreio e o trovão distante são silêncio. A chuva e o vento e a onda que rebenta são silêncio. É silêncio a estrela, a galáxia, o cosmos inteiro. É silêncio a ideia, o pensamento e a palavra. É silêncio a vida, a existência, a criação.
 
Só o silêncio toca o eterno, morada única do ser universal. Terra de ninguém onde o ego não tem entrada.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Mundo às Avessas ou o Império da Estupidez


Les Pommes - Paul Cézanne - 1890

Não há maior gerador de confusão do que a estupidez. E cada vez mais é ela o factor determinante no sentido de “progresso” da civilização.
Conceitos tais como o bom senso, a seriedade, o respeito pelo outro, pura e simplesmente desapareceram. Ou imbuíram-se de tal profunda deturpação que o miolo se esboroou, restando apenas a casca e um oco onde cabem todas as barbaridades.
Tudo o que antes era simples, natural, espontâneo, criativo, passou a ser complexo, provocado, intencionalmente elaborado e maquinado segundo as tendências, os gostos, os caprichos e as sofisticações, todos eles induzidos, das massas.
Na pintura, na escultura, na arquitectura, na música, na literatura, a obra deu lugar ao mamarracho. Porque o mamarracho vende, o mamarracho traz fama, o mamarracho nutre o ego e o bolso do fiel devoto do dinheiro. E o resultado está à vista: borrões pueris ou acessos de ira vitimam as telas e logo são catalogados como pioneiros da escola X ou Y, “esculturas” patéticas e aberrantes onde se lêem gritantes frustrações e pedidos de atenção, edifícios inúteis e ostensivos, de formas estridentes que ferem o olhar e a beleza, composições de notas dissonantes em ritmos que lembram evocações satânicas e estados psicadélicos, livros e livros, a maior parte autopublicados, com cheiro intenso a romance de cordel ou a poesia inspirada em vapores etílicos.
Tudo é cada vez mais artificial, mais extravagante, mais estrambótico. E a isto chamam originalidade. Chafurda-se em intelectualidades vazias, frequentam-se eventos sem nexo para se ser aceite, para fazer parte. E a isto chamam cultura. Furam-se e pintam-se os corpos, deformam-se com silicone e botox, numa tentativa absurdamente estúpida de alcançar ideais de beleza. E a isto chamam personalidade. Do alimento fez-se brinquedo e mercadoria. A deliciosa trincadela numa maça sumarenta acabada de colher deu lugar à sofisticação do alimento processado, recreação multicor para a visão, sedutor e oculto veneno para a saúde. E a isto chamam civilização.
Todas as áreas da vida têm vindo a ser sistematicamente artificializadas, mecanizadas, descaracterizadas. Os seres humanos também. E de tal forma que já não sabem o que é trincar uma maça sumarenta acabada de apanhar para lhe sentir o verdadeiro sabor, tal como já não sabem o que é deixar crescer até ao infinito um sentimento interior para lhe conhecer o verdadeiro significado.
De exterior e interior pervertidos, mutantes informes em razão dos seus desconchavos, eis o único feito realmente extraordinário dos seres humanos: a diligente e contínua construção do Império da Estupidez. Só a trincadela na maça e o desenvolvimento do sentir interior, levados a sério, de corpo e alma, por cada um dos indivíduos, poderá conduzir à queda deste império e à ascensão do da verdadeira humanidade.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Brilhante ou Sombria

René Magritte - La Baigneuse du Clair au Sombre (1935)

Não preciso que a noite caia
p’ra que se me escureça a alma,
e o mais sombrio dos dias não apaga o brilho que por vezes nela se acende… 

Sucedem-se as estações do meu sentir à cadência incerta do pensar:
se as penso amenas, parecem primaveras luminosas e serenas
ou outonos dourados e tranquilos;
se as penso conturbadas, ora escaldam como verões sufocantes,
ora gelam como álgidos invernos.  

E quase sem reparar, tão inconstantes são os pensamentos
quando correm soltos e a toda a brida,
ora estou no mais extático dos céus, ora no mais sinistro dos infernos… 
 
Brilhante ou sombria se põe a alma consoante pense a minha vida…
 
 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Insanas Volubilidades




Ainda mal saímos da parvoeira da carga policial e dos coitadinhos apedrejadores, dos milhentos comentários imbecis a favor e contra uns e outros, do espanto aparvalhado perante as acções humanas (imaturos e pascácios que somos, não conseguimos compreender ainda a nossa própria natureza e reacções!), e já estamos, de novo, paulatinamente, rodeados pela idiotice das popotas e das leopoldinas, ao serviço da quadra mais hipócrita do ano.
Ainda mal silenciamos as línguas viperinas, sempre tão prontas a criticar e a julgar, e já estamos com o espírito natalício na ponta da língua, pronto a ser arremessado a todo aquele que por esses meandros não enverede.



Ainda soam, estrepitosos, os bombardeios que dilaceram carnes inocentes. Ainda se usa, diariamente, hora a hora, minuto a minuto, a morte como moeda de troca por um pedaço de terra. Urinassem-no, aqui e acolá, delimitando-lhe as fronteiras, tal como fazem os cães, e atacassem os trespassadores à dentada, em vez de fazer jorrar o sangue de criaturas inculpadas escudados pela bestialidade das religiões e da história. Ainda a morte vitima em Gaza, ainda a fome dizima na Somália e morde em Portugal, e já as cabecinhas ocas se focam nas mil e uma inutilidades que vão compor o fútil cenário da quadra de todas as falsidades.
 
Já se fazem contas. Idiotas diplomados fazem estudos e chegam a valores médios. Sossegam as massas. Olvidam-se indignações. A ocasião que se aproxima requer pompa e circunstância, requer ofertas, mesas fartas. Enquanto se atafulham os egos com objectos cuja utilidade se reduz a substituir auto-estimas, valores e princípios inexistentes, e os estômagos com lautos manjares, os olhos só vêem os fulgores do egoísmo, e as mentes, convenientemente embotadas, não se aventuram para além dos círculos do supérfluo e do fútil.
 
Depois da quadra, voltam as indignações, fazem-se contas outra vez, soltam-se imprecações contra a crise. Alojada nos cérebros de ervilha, hibernando por agora, está já latente a quadra do próximo ano. Em momentos fugazes, durante os meses que a antecedem, lá virão outra vez à memória pensamentos incómodos acerca do mundo. Lá virão instantes em que os rostos se compungirão com esta ou aquela desgraça, com esta ou aquela guerra, este ou aquele flagelo. Mas só por instantes. Instantes que duram apenas o que tarda a pronunciar palavras como “coitaditos”, “pobrezinhos”, “desgraçados”, na conversa social do politicamente correcto.
 
Doze meses depois, repete-se o folclore, repete-se o ritual, repete-se o fingimento. Volubilidades. Oxalá fosse também volúvel a estupidez, mas essa, para mal dos nossos pecados, parece ser imutável e contínua…

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Impunidades, Falsidades e Outras Dualidades




É, ou não é, uma verdadeira carnificina a fome que os senhores do mundo estão a fazer passar às gentes do mundo inteiro? É genocídio, sim senhor! E tem bem mais vastas proporções que o holocausto! E fica impune?  Fica!
É, ou não é, um verdadeiro roubo a extorsão praticada pelos senhores do mundo, sob a forma de impostos e legislação facciosa, sobre a pessoa comum? É roubo, sim senhor! E tem bem mais vastas proporções que todos os espólios e saques de guerra! E fica impune? Fica!
É, ou não é, pura escravidão a sub-reptícia manipulação a que são constantemente sujeitas as pessoas, através da contínua degradação do ensino e das estupidificantes publicidade e comunicação social ao serviço dos senhores do mundo? É escravidão, sim senhor! E tem bem mais vastas proporções que a escravatura do passado! E fica impune? Fica!
Genocídio, roubo, escravatura! Tudo isto tem ficado impune! Todos os que, até hoje, foram castigados por crimes de guerra, de corrupção, crimes contra a humanidade, etc., não passaram de meros bodes expiatórios. São vítimas escolhidas para dar o exemplo e calar indignações. São voluntários involuntários para continuar a fazer acreditar que a justiça e a moral ainda existem. São objectos de sacrifício tão só e apenas para que os verdadeiros verdugos da humanidade possam continuar a movimentar-se sem obstáculos nem oposições.
Mas tu, que estás a ler estas palavras com um quase inconsciente aceno de cabeça em inegável concordância, crês estar isento de culpa? É que não estás, sabes?
Porque, afinal, até passas a vida com o cérebro adormecido, a líbido desperta e a estupidez lubrificada! Afinal, consegues adormecer todas as noites sem sequer pensar nas seis crianças que morrem de fome a cada segundo em que te entregas a sonhos frívolos! Afinal, és tu que idolatras o presidente ou o secretário-geral do teu partido, ainda que profiram as maiores incongruências e ordenem as maiores barbaridades! E és tu que lá vais pôr o teu voto sem sequer te dares conta de como te puxam os cordelinhos!
Afinal, és tu que, pelas costas, criticas e insultas meio mundo, imbuído de uma sabedoria “tudológica”, e na presença daqueles que criticas te inclinas reverentemente perante eles, rabo alçado e testa rente ao chão, enquanto pelos neurónios te passa a chispa da inveja e num nano-segundo te vês, babado, como o detentor desse poder que reverencias e de que falsamente escarneces! Sim, até porque eu vejo-te, na televisão, risonho e propenso à adulação quando o senhor ministro visita o teu local de trabalho; e vejo-te depois nas manifestações a insultá-lo, carrancudo e propenso a uma violência quase homicida!
Afinal, és tu que não vês que és exactamente igual aos sujeitos da tua crítica! Afinal, és tu que continuas a esganiçar-te, com a atitude enérgica e saltitante de um garnisé e uma coragem não maior do que a dimensão do galináceo, para defender a mudança! Mas, afinal, quem não quer mudar és tu! Não queres mudar a tua ambição, não queres mudar o teu sonho de poder, a tua ganância desmedida. Afinal, queres é atingir o teu objectivo, ainda que egocêntrico, ainda que insustentável, ainda que pernicioso, ainda que destrutivo, custe o que custar! Pois é precisamente este “custe o que custar” que deixa impunes os genocídios, os roubos, as escravidões… Percebes agora porque não estás isento de culpa?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Oitava e Última Parte

(continuação)

Garden of Eden - Vladimir Kush

Depois do começo
Esta nova acção total não combina contigo, com essa tua parte construída com informação e opiniões. Procuras então alguma actividade fragmentária para recomeçar o círculo do absurdo, do nada escuro que te chama com inquietude e nostalgia a partir do teu próprio ser. Mas estás solenemente acordado e vês a impossibilidade de regressar do todo para a parte. Encontras-te num inferno de paz. Ocultar um desgosto, sepultar uma dor com o sexo, com a acção social, com a bebida, com a chamada “religião”, com a chamada “política”, com qualquer das inúmeras palas que usamos, é semelhante a enterrar uma semente que inevitavelmente explodirá em centenas de raízes ocultas de novas dores, de novos sofrimentos. Enfrenta a dor, não a respeites, que morra agora quando surge, porque com a primeira distracção ou consolo, não fazes senão enriquecer a sua fertilidade. Destrói as sementes da dor abordando o sofrimento agora mesmo, com as armas mais difíceis de forjar: a quietude e o silêncio.
Tens que enfrentar a essência do teu problema. Aprender a arder com a tua própria tranquilidade, a queimar-te a cada segundo na sagrada arte e difícil ciência do teu próprio silêncio, e aprender a inesgotável lição do teu silêncio.
 
A herança
O homem velho não está satisfeito com o novo mundo. O homem novo sofre perante o homem velho. Mas já não se trata de estar satisfeito nem de não sofrer. Também já não se trata de estar satisfeito e/ou feliz. A questão transcende todos os limites. Trata-se da morte ou da vida do homem. Trata-se de continuar o caminho do homem velho no sentido da automatização, da rigidez e da proibição, da mineralização, da inconsciência, do autoritarismo, das guerras periódicas, das doenças psicossomáticas e da morte. Ou de regenerar a espécie humana em nós próprios para que siga o seu novo caminho no sentido da amizade, da flexibilidade e da compreensão, da consciência, da cooperação voluntária, da paz duradoura, da saúde total e da vida.
Trata-se de que morram em ti todos os elementos do homem velho que herdaste em mente e em corpo. Identificar esses elementos velhos que se manifestam a cada momento no teu ser, em actos, pensamentos e sobretudo nas palavras, é a tarefa mais urgente que convém empreender, tomando, além disso, consciência da incongruência do homem velho que favorece e justifica todas as suas atitudes (autoritarismo, guerra, etc.) em nome da “Nova Humanidade”.
Cada palavra e feito teus será um testamento; trata de que não seja o mesmo que nos legou o homem velho. Dá afecto, dá amor sem medo e sem causa, com palavras (poucas), com feitos e com silêncio. Dá amor sobretudo se não o recebeste. Dá carinho, amizade, amor, amabilidade, porque são o remédio principal e sobretudo porque herdaste muito pouco disso. Lega o carinho e a amizade porque não há outros caminhos nem métodos para chegar ao caminho luminoso do amor. Ele chega quando nós próprios decidimos abrir os olhos e caminhar.
Destrói a tua herança de proibições e deixa por herança a liberdade. Sê livre: dá liberdade. Crescerá assim a tua capacidade de identificar e ouvir todos os homens novos de todas as épocas, e de que todas as suas verdades se façam em ti uma só verdade. Hoje e aqui.
 
O ser humano novo
Pode ser homem ou mulher. Pode ter relógio. Pode não tê-lo, mas a sua mente libertou-se do tempo. Pode ter ou não ter, mas libertou-se de ambas as coisas. Pode viver em qualquer país, mas não pertence sequer ao mundo. Não prepara revoluções armadas em grupo. Realiza a sua única revolução em si mesmo, o que é mais corajoso e muito menos cómodo; é a única revolução directa, é uma revolução de cada momento, na rua, em casa, no trabalho e até no próprio leito de morte se lamentavelmente não a começou antes.
Não pede regras, nem exemplos, nem conselhos. Também não os dá. Não procura a alegria, vive-a sem esperá-la. Não procura a serenidade, vive-a sem esperá-la. Não procura emoções, encontra a maravilha da vida em cada momento, em qualquer lugar. O seu templo está dentro da sua pele e dentro do templo está aquilo que nem ele mesmo, por mais que desmedidamente se esforce, poderá expressar.
É um grande político construindo sem descanso a nova humanidade, a humanidade unida. A sua política é o gesto amigável sem hipocrisia, a sua atitude de respeito e o olhar profundo, cada palavra, cada acção, em cada instante, em qualquer lugar. Não partilha nenhum tipo de discriminação entre os humanos. Não procura segurança, porque sem querê-lo, já a possui neste momento e, procurando-a, não a encontrará. Afasta-se do ruído. Sabe que o destrói, “materialmente” ou organicamente inclusive. Conhece o seu ritmo psicobiológico. Respeita-o, impede com tranquilidade que se altere. Sabe que o alteram facilmente as conversas agitadas ou insípidas, a televisão massificada, a rádio comercial-publicitária, a competitividade, o consumismo, a análise, a acumulação, a opinião, a interpretação e a condenação. Aceita-se tal qual é. Não deseja mudar porque sabe que estando vivo e desperto, será diferente a cada instante.
Não adquire nem consome continuamente porque conhece as suas necessidades físicas. É-lhe suficiente satisfazê-las natural, tranquila e prazenteiramente. Simplesmente protege a sua vida. Incondicionalmente protege a vida. Pode ter esposo ou esposa. Pode não ter. Em todos os casos, é livre. E aceita a liberdade do outro.
Não tem direitos nem deveres. Toda a sua acção surge espontaneamente da total aceitação da vida, isto é, do amor. As suas relações são estáveis porque são sãs e as suas relações no amor surgem da total aceitação não deliberada. Não pode conceber que as relações de amor tenham um fim porque conhece o amor, e não pode conceber que existam relações que persistam somente por dever e por direito, por culpa ou por responsabilidade.
Jamais espera que seja outro quem salte antes. Salta ele sem desejar ser o primeiro a fazê-lo. Não interrompe o seu despertar nem sequer quando dorme. O Ser Humano Novo está só e sabe-o. Só ainda que no meio da multidão. Só na vida e na morte, e sabe também que o seu destino é o destino de todos. Por isso compreende que com a sua própria liberdade real e com a sua própria regeneração, acabou de começar a regenerar-se e a libertar-se a humanidade inteira. 

Quem tenha olhos para ver, que veja.
Quem tenha ouvidos para ouvir, que ouça.


FIM


domingo, 28 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Sétima Parte

(continuação)

Other Worlds - Vladimir Kush

O banho
A água banha o corpo. O silêncio também banha. Toma semanalmente (se possível diariamente) um banho de algumas horas de silêncio. Totalmente só e despojado. Sem livros, sem palavras, sem amigos, sem dinheiro, sem inimigos, sem trabalho, sem lazer, sem máquinas nem aparelhos de espécie nenhuma. Sem ruído interno e se possível sem ruído externo.
Totalmente livre. Inunda-te de silêncio, aos domingos ao amanhecer, às quartas ao entardecer, ou quando quiseres, tanto faz. Mas fá-lo.
Toma esse banho que é tão ou mais importante que o banho de água.
Inunda-te de silêncio e de luz. Tu próprio compreenderás.
 
Não
O homem novo não deseja a mudança. Vai mais profundamente, realiza-a.
Diz que não simples e amavelmente a tudo aquilo que o rodeia e que destruiu o homem velho. Sem regras, sem procurar exemplos, e sem dá-los, efectua a mudança em si próprio. Subitamente, como um clarão, serenamente, há uma explosão silenciosa na mente do homem novo. Há uma flexível firmeza e uma paz e alegria que chegaram sem terem sido procuradas entre as múltiplas e torpes maneiras que o homem velho utiliza.
 
Acção
Não importa o que fazes. Mas deve agradar-te. Na própria rotina pode estar o novo, se deste já a necessária voltinha interior, o salto mental essencial.
Vive cada segundo intensamente, ou seja, com atenção. Sem esforço. Serenamente. Não te isoles. Aproxima-te de todos e aceita-os como são, mas tu continua a viver da nova maneira mesmo entre eles. Não temas ser diferente, não temas ser igual. Não temas. Adiante. Salta!
 
Apego
Ofenderam-te. Porque te sentes ofendido?
Não te agradeceram. Porque esperas agradecimento?
Não conseguiste. Porque esperas sempre um resultado daquilo que fazes? Será que não te agrada o que fazes no preciso momento de o fazer?
Não te apegues ao trabalho. Aceita-o e desfruta dele como uma criança e o seu brinquedo.
Não te apegues às pessoas. Aceita-as e desfruta delas. Não te apegues às ideias, não as aceites. Não as negues. Voa muito alto por cima delas.
 
A importância das coisas
Todas as coisas têm importância em função de tornar-nos conscientes e despertos. E as coisas vivem-se somente no despertar. Se não despertares totalmente, não poderás sequer recordar os teus sonhos de quando dormes.
Tudo aquilo que te adormeça ou distraia do que acontece aqui e agora (e não só do que fizeres acontecer) destrói o mais nobre, o mais subtil, o mais essencial do ser humano. Todo o problema que não seja abordado com brandura e atenção traz consigo escuridão, isto é, a perpetuação do problema. Não toleres as discussões, as conversas banais, os comentários, as troças, as reuniões intelectuais.
A compreensão global fará com que te apercebas de realidades que a princípio não poderás suportar, porque o coração é mais lento que o cérebro, porque foste construído com mentiras e conselhos, com informação e opiniões, com comentários e notícias, com excitação e ruídos e porque não cresceste com cada verdade. Mas não feches os olhos, espera calmamente que a luz invada também o coração.
 
Confusão, ignorância, estupidez
O homem mais confuso é capaz de tomar uma atitude esclarecida: a inacção.
O homem mais ignorante é capaz de manifestar as palavras mais sábias e que melhor conhece: “Não sei”.
O homem mais estúpido deixa de sê-lo quando compreende as consequências de um disparate.
(continua)

sábado, 27 de outubro de 2012

“O Manual do Homem Novo” – Sexta Parte

(continuação)


Journey Along the Edge of Earth
Vladimir Kush

O começo e o final
 
Difunde estas palavras ditadas pela luz interior. Multiplica-as pelos seus próprios sons. Começa a fazê-lo. Di-las novamente com o seu próprio sentido na tua própria linguagem. Mesmo no silêncio. Acaba com as frases ditas só para passar o tempo. Acaba com as frases pensadas só para preencher os teus pensamentos. No silêncio da tua mente, a luz falará.
Acaba com as acções estereotipadas ou automáticas.
Estas palavras não são conselhos nem ditam regras. Deixam-te totalmente livre para que, com a tua própria atenção, descubras toda a verdade que te rodeia e que desprezas sem saber. Compreende simplesmente que estás semiadormecido, e esse será o começo e o final do despertar. Apercebe-te do que fazes, mesmo que o consideres de pouca importância. Apercebe-te naturalmente, sem tensão. A cada momento. Agora mesmo.
 
É quanto basta
Precisas de força, firmeza e flexibilidade, mas não para suportar melhor esta situação de comodidade apetecível, de rodopio absurdo, de ruído, de conversas insignificantes, de competitividade esmagadora.
A força utilizada para a tua adaptação já cumpriu a sua tarefa: produziu o homem velho. Olha-o com os olhos iluminados pela atenção serena. É quanto basta.
Ouve-o atentamente: é quanto basta para deixar transparecer o novo sentido que a tua firmeza tem.
Despojar-te. Abandonar-te. Saltar. Embrenhar-te no silêncio sem sentir autopiedade. Dar uma volta de 180° ao teu pensamento e às tuas actividades comuns de cada momento. Começar de novo. Sair dos escombros do passado para a luz menosprezada do presente é flexibilidade.
É quanto basta.
 
O umbral
Dizem-te para que serves, para que estás no mundo, o que deves fazer e como deves desfrutar. Mas isso deve ser pensado e decidido somente por ti próprio. Podes fazê-lo. Não temas. Acaba com os cartazes, os anúncios, os conselhos, a rádio, os jornais, a televisão e com qualquer outra coisa que te diga o que fazem os outros (comentários e notícias) e o que deves fazer ou como comportar-te em diversas situações (conselhos, propagandas, etc.). Acaba com o ruído. Destrói os limites do espaço e do tempo. Do tempo mental mais que do tempo do relógio. Não te intrometas na vida alheia, que é toda a vida que palpita fora da tua pele.
Impede relaxadamente que se intrometam na tua própria vida. És livre. Vive a tua liberdade o mais plenamente que possas. A comunhão é do homem novo, o intrometimento é do homem velho.
Deixa viver a liberdade alheia. Não aceites argumentos velhos nem conceitos repetidos que pretendam suavizar esta grande e indiscutível verdade que é tão-somente o umbral da porta da luz.
 
O corpo
Abandonaste as coisas que interferiam na actividade do teu corpo e da tua mente: álcool, tabaco e outras drogas, excesso de alimentos, conversas vãs, excesso de sons, e tudo aquilo que tu mesmo descobriste. Mas essa é uma parte muito pequena do processo de mudança. Não te detenhas nos esforços que te exigem as pequenas renúncias.
Que não haja esforço, abranda. Não pares no primeiro pequeno passo, o de libertar o teu corpo. Há um oceano de luz que te espera. Salta da tua escuridão. Lança-te no vazio.
 
Exemplos
Não peças exemplos de homens novos porque todo o exemplo limita a verdade ou deforma-a. Poderás reconhecer os homens novos que te rodeiam e ainda os que morreram quando tu próprio fores um. Hoje. Compreende de forma global. Abre a tua mente, serena e valentemente à luz. Não dês apreço à tua tristeza. Não a respeites. Não vivas a vida dos outros. Não vivas em segunda mão. Morre para os mexericos. Vive a tua própria vida. Os exemplos não podem ser mais do que velhos. O homem novo de ontem, hoje é velho e o seu caminho não é o teu. Não pode existir um exemplo que não seja do passado, mesmo que tenha surgido só do teu pensamento. Ignora os exemplos.
Não peças nada, entrega-te com tranquilidade. Pensa-o tu mesmo. Fá-lo tu mesmo. Agora. Compreenderás sem palavras.
 
(continua)
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