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| Born to Fly - Vladimir Kush |
Culpas e cumplicidade
Não te
sintas culpado. Começa tudo de novo, como num nascimento. Ouve com atenção o
homem velho. Compreende o que te diz. Com a tua nova mente, desperta e serena,
poderás morrer totalmente para o que te disser e não ser cúmplice do que ele fizer.
Não
procures desculpas e motivos para te justificares. Não te detenhas em conversas
intelectuais e argumentos astutos, enquanto as tuas acções continuam a ser as
velhas. Quem já tem consciência da sua
consciência como tu, não tem outro remédio senão dar o pequeno grande salto
e transformar-se no Ser Total. Agora
mesmo, completamente novo. Acima da dor, e sem respeitar a tua dor, que com dor
se morre e com dor se nasce.
Homem velho
O
homem velho tem qualquer sexo ou qualquer idade. Engavetou o tempo e dividiu a
terra e o mundo. Tem regras fixas, moral aceite ainda que só a respeite na
aparência, pertence a alguma igreja, ou a algo que a substitua, embora ignore o
que é a religião e a religiosidade.
Tem
partido político definido, seguro de vida, um trabalho que o aborrece,
opiniões, bens, conta bancária e cartão de crédito, e, desejando assegurar a
sua vida, vive semimorto; aprende a matar e a morrer, tem os inimigos que
alguém lhe assinala e vai à guerra quando lho dizem, mas não sabe o que é a
vida, pois raras vezes lhe falaram seriamente dela. Prefere medalhas de honra e honras póstumas de filhos heróis, e não
filhos vivos em qualquer condição. Foge do silêncio e da quietude, porque neles
se pode encontrar com o seu verdadeiro rosto e ver-se tal como é, o que o
assusta. Mas teme mais a possibilidade de mudar totalmente de um momento para o
outro.
Dá
somente se receber algo em troca.
Sorri
se com isso assegurar algum benefício futuro. Só se ama a si mesmo, e finge
amar quando o amam. Entretém-se a consumir: roupas novas, televisão
massificada, jornais, conversas sem sentido, a chamada “acção política”, o
cinema, a opinião do próximo e a psicanálise quando pode pagá-la.
Vai
adiando. Julga estar cómodo embora secretamente esteja insatisfeito e seja
terrivelmente infeliz.
Tu próprio
Sai para
caminhar, contempla os olhos de todos aqueles que partilham o teu próprio
destino de viver e morrer.
Se não
esmoreceres na tua atenção lassa sem pressa e sem pausa, até numa bela
jovenzinha poderás identificar o homem velho em decomposição. Aceita-os e segue o teu caminho. Não és
herói nem desejas sê-lo, basta de heróis, e não pretendes mudar ninguém nem
intrometer-te. Mas em ti e a partir de ti gera-se a regeneração da espécie
humana. É suficiente aceitar o salto. Subitamente
deixar de ser, e novamente ser o mesmo, com o mesmo nome, mas ser novo. Tu
Próprio.
Despertar
Desperta.
Estás adormecido pelas distracções quotidianas ou semanais. Pelas palavras vãs.
Pelo ruído. Com o teu cérebro iluminado compreenderás num só momento para onde
se dirige o homem velho. Com essa mesma luz verás a urgente necessidade de dar
uma volta às tuas palavras e às tuas acções de cada instante. Encontrarás
também sem dúvida a força serena, sem que te admires, para que a tua
transformação seja estável. Não deixarás dentro de ti nenhum elo da corrente do
passado, nem a tua pátria, nem o teu nome se necessário for, para acabar com os
cercos e as bombas e a persuasão para a morte.
Em teu
redor darás forma, pouco a pouco, ao mundo novo, aquele que se constrói a cada
momento e que talvez nunca se veja, cheio de Vida; ao lado do homem velho, e
mesmo sem ajuda, porque a tua nova luz
fez-te tão forte que nunca mais poderás acreditar que nasceste fraco e que
não podias fazer o céu na terra.
Não
esperes que seja o teu irmão, a tua esposa, o teu companheiro, o teu filho, o
teu professor ou o teu vizinho a começar. Pensa-o
tu. Di-lo tu. Fá-lo tu próprio. É urgente que renasçam em ti próprio, a
cada instante, os homens novos de toda a história. É urgente que oportunamente
mates todos os homens velhos que inesperadamente surjam do íntimo do teu
próprio ser.
(continua)












