quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Coisa

Heavenly Fruits - Vladimir Kush



A maior Virtude é seguir o Tao e só o Tao.

O Tao é elusivo e intangível.
Embora informe e intangível, ele origina a forma.
Embora impreciso e elusivo, ele origina os formatos.
Embora sombrio e obscuro, ele é o espírito, a essência,
o sopro da vida de todas as coisas.

Através dos tempos o seu nome tem sido preservado
para evocar o princípio de todas as coisas.
Como sei de que modo eram todas as coisas no princípio?
Olho para dentro de mim e vejo o que está dentro de mim.
 
Lao-tzu em O Tao – Verso 21





Podem dar-lhe o nome que quiserem, defini-la de mil e uma maneiras, explicá-la por A + B, rejeitá-la com argumentos intelectuais de peso, negá-la com rios de provas físicas. A Coisa, porém, não é definível, não é explicável. E mesmo que rejeitada, mesmo que veementemente negada, ela continua aí. Continua aqui. Porque a Coisa é. A Coisa existe. A Coisa e nós é uma coisa só.
A Coisa é confundida com muita coisa. Isto, claro, quando se sente a Coisa. A maioria não a sente, ou se a sente, sente-a tão pouco que é como se a não sentisse.
Outros sentem-na um pouco mais. Mas sentem-na como algo que não é deles, como algo que lhes é completamente alheio. Não compreendendo a Coisa mas adivinhando-lhe a existência, em vez de a explorarem com o mesmo cuidado e carinho com que se buscam sentimentos nos escaninhos da alma, trajam-na de divindade e veneram-na. Veneram-na lá longe, no atroz limiar entre o real e a ilusão, afastando-a assim ainda mais de si próprios. Criam toda uma panóplia de dogmas, explicações, imposições. E então a Coisa, mascarada, camuflada e distorcida, permanece na ignorância e no olvido, reduzida à serventia de um vazio ritual.
Outros há que por vezes a sentem com força, com vigor. Mas, porque as suas vidas estão tão orientadas para o exterior de si mesmos, a explicação fácil e comummente aceite parece-lhes tão satisfatória que dúvidas, se as houvesse, nem a nascer chegariam. “É a inspiração” dizem uns. “É a voz da consciência” dizem outros. “Sinto uma angustiazinha, mas isto há-de passar” comentam alguns. “Parece que tenho um mau pressentimento. O melhor é pensar noutra coisa e esquecer” ou “Parece que me falta qualquer coisa. Sinto insatisfação. Vou fazer umas compras. Vou sentir-me melhor, com toda a certeza” decidem outros ainda. E a Coisa, chamada por mil nomes que não o dela, é posta de lado, ficando arrincoada num qualquer obscuro recanto da mente onde também moram a incompletude, a insegurança, o medo…
Endeusar a Coisa ou ignorá-la de nada adianta. Esquecê-la, adiá-la, escondê-la, rejeitá-la, disfarçá-la, calá-la, é absolutamente impossível. Porque a Coisa e nós é uma coisa só. A negação da Coisa na vida é uma automutilação, como se se decidisse atar uma perna à nascença e passar pela vida tendo-a mas não a usando. Viver sem consciência da Coisa é viver com limitação: existe-se mas está-se incompleto; é-se, mas não se é pleno; vive-se, mas não na íntegra.
Viver na consciência da Coisa é tudo. E quando se tem tudo, não se precisa de coisa nenhuma...
 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

As Manifestações ou Uma Visão Particular e Crua Sobre o Global




Se a mobilização a que se assiste neste momento tivesse em vista um concerto, um jogo de futebol, uma festa na praia com música pimba ou uma festa partidária, lá estaria o povinho em peso. Iriam todos sem hesitar, desde que a música puxasse o pé para a dança, o tinto e a cerveja escorregassem com fartura e os comes fossem de borla. E depois seria vê-los, anestesiados e aturdidos, autênticas baratas tontas, a idolatrar, com caras de basbaque e uma admiração estúpida no olhar, uma qualquer criatura dita famosa, criada à medida do tosco gosto da populaça.
Mas a mobilização é para uma manifestação. E o povo só comparece se não houver jogo na televisão, ou churrasco na casa dos amigos, ou sol que permita um picnic ou uma tarde de praia bem passada com bolas de Berlim e gelados. A indignação, essa, fica para outra altura, quando houver mais vagar. E isso se durar até lá, porque o que é costumeiro é desabafar em voz alta, quase a berrar, no café, com os amigos e conhecidos. Ou então mandar uns palpites às câmaras de televisão que, nem sei se por acaso ou por decreto, se empenham sempre em escolher a dedo, para entrevistar, os espécimenes mais broncos e mais rudes.
Este é o comportamento barbárico de uma das maiores faixas da população. Pela sua natureza e dimensão, portanto, constitui esta faixa a menina dos olhos dos governos! Ela é manipulável, contenta-se com pouco. Aguenta as pancadas sucessivas porque é formada por gente habituada ao trabalho duro e ao sacrifício, e por gente de mão leve no que toca ao alheio. O deus no céu e o clube de futebol na terra constituem um terreno firme para cultivar a ignorância, para alimentar as tradições que incentivam à não-mudança. Esta faixa é a grande garantia de um voto no quadrado certo do político velhaco. Uns beijos lambuzados, um aroma a peixe e umas escamas que teimosamente se agarram à mão dos passou-bens, é tudo o que é preciso para vender o voto e garantir a desejada continuidade. E o povo, inculto, ignorante, crédulo e impreparado compra-o, sem sequer olhar ao preço que por ele terá de pagar.
Nesta faixa incluem-se também os imbecis. São aqueles que acham que sabem tudo, que têm razão em tudo, que percebem de tudo. São os que, apesar de, na sua maioria, terem formação, permaneceram no nível básico no que toca à inteligência e ao senso comum. São os que vivem segundo valores e princípios de ocasião, distorcendo-os e tergiversando-os a seu bel-prazer, sempre com o intuito de ganhar, obter, subir. Normalmente passam pela vida montados em topos de gama e despedem-se dela com o mesmo grau de estupidez com que nasceram.
Estes são os que comparecem nas manifestações para fazerem a triste figura do engraçadinho no meio da multidão. Gostam de dar nas vistas e, se lhes for dada demasiada atenção, proferem parvoíces com a convicção do mentiroso patológico e com a cadência de um disco riscado. Têm tendência para gerar conflitos e desfrutam com os tumultos que causam. São bastante apetecíveis para os abutres do poder. Caracterizados pela imbecilidade dos seguidores de modas, votam pelo som que melhor satisfaz os seus ouvidos. Normalmente soam-lhes bem as palavras dinheiro, poder, luxo, etc. Costumam votar no partido da moda, isto é, no mais provável vencedor, mas não sabem, em consciência, porque o fazem.
E fica assim o governo descansado: o povo que for à rua vociferará alguns impropérios para aliviar a tensão e voltará a casa tão manso, tão passivo e tão conformado como antes!
A segunda maior faixa da população é constituída por aqueles que, tendo educação, formação específica, princípios e valores, são no entanto discretos, sensatos, ponderados. Tratando-se de pessoas equilibradas e responsáveis, elas apercebem-se com racionalidade e senso comum, da degradação galopante da sociedade, da economia, dos princípios democráticos e de sã convivência. São normalmente pessoas exemplares como cidadãos, como profissionais, como conterrâneos. As que votam fazem-no em consciência, dando sempre ao eleito o benefício da dúvida em nome de uma esperança mais que desejada. As que não votam, branda e persistentemente vão tentando melhorar o mundo que as rodeia.
Se comparecem nas manifestações, o seu comportamento é sempre cívico e educado. Mantêm no pensamento as dificuldades por que passam os seus semelhantes e tentam sempre fazer o seu melhor. Porque são pouco influenciáveis e pensam por si próprias, conhecem bem os poderosos maquinismos que se movem por detrás das desgraças de um povo. Sabem muito bem quem são os amos e senhores que ditam, implacáveis, os destinos do mundo.
É para esta faixa que se direcciona a pouca conversa inteligente dos políticos. Não é, no entanto, uma faixa fácil de convencer.
E finalmente, há uma terceira faixa de população que é, na sua esmagadora maioria, a responsável pela situação actual. É a faixa dos magnatas, dos banqueiros, dos grandes empresários, dos políticos, dos interesseiros, dos corruptos, dos ladrões, dos extorsionistas, dos habilidosos, dos alpinistas sociais, do jet-set, dos oportunistas, etc., etc., etc.
Ora estes, que se têm em grande conta e pertencem, segundo os próprios, a uma estirpe superior, jamais se misturam em aglomerados populares. Jamais partilham também do rosário de lamentações do povinho, que, aliás, se queixa por tudo e por nada. Alguém que passe dificuldades ou que não tenha que dar de comer aos filhos, para estes “seres superiores e intocáveis” são meras afirmações que soam vagamente a títulos deprimentes de filmes lamechas do pós-guerra. E, obviamente, para estes cérebros de cabeça de alfinete desprovidos de qualquer compaixão, um salário mínimo é mais do que suficiente para que as famílias, ainda que filhas de um deus menor, vivam confortavelmente.
Esta é a faixa que sustenta o poder no seu âmbito geral. Votam uns nos outros, formam compadrios e assinam acordos. Fazem pender o prato da balança para o lado que mais lhes convém e chamam a isso equidade. Possuem um sistema de interajuda a nível internacional e encobrem-se uns aos outros. Tudo em nome do país, da melhoria das condições de vida, de uma democracia que não passa de uma marca subliminal implantada no cérebro dos ignorantes, dos imbecis e dos crédulos.
Esta é a faixa que escora o sistema. Um sistema podre e corrupto, de interesses elitistas, de profundo desprezo pela vida humana, pelos valores fundamentais do homem. Esta é a faixa que salvaguarda a sua própria existência à custa da constante degradação das condições de vida, de educação, de saúde, de sustentabilidade.
Por tudo isto, as manifestações, por maior imponência que possam vir a ter, serão sempre, para a faixa que detém o controlo, um divertimento passageiro e nunca uma pedra no sapato.
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Das Inutilidades e Da Alma



Inner Soul Search - Colette Guggenheim


É tudo tão inútil. Ou, pelo menos quase tudo. Não são inúteis os sorrisos, não aqueles que se esboçam com bonomia. Mas são inúteis aqueles que lembram uma irreprimida contracção muscular. Não são inúteis os bons dias que transpiram sinceridade e soam a um trinar primaveril. São inúteis, porém, os que são dados entredentes, que não transmitem nada mais que um visual esgar, contrariado por um som que se pretendia mudo.
É inútil o gesto que contraria a palavra e é inútil a palavra que não se espelha no movimento corporal. É inútil a cortesia estudada, a simpatia seca, a disponibilidade que se espera não receba aceitação. São inúteis os sim que são não, os assentimentos e as concordâncias como meros nutrientes para o ego. São inúteis as dádivas focadas no receber e os abraços vigorosos que esperam recompensa.
São inúteis os aplausos impregnados de inveja e as adulações nascidas do ciúme. Inúteis também as opiniões forjadas em pensamento alheio e as atitudes escolhidas em passerelle. É inútil o que se diz e desdiz ao sabor das gentes. São inúteis as palavras de honra ditadas pela ausência da honra, e as indignações em defesa de inexistentes integridades.
Todavia, jamais será inútil todo e qualquer acto, palavra, ou sentimento advindo da profundeza da alma do ser que, sozinho, procura no silêncio a marca da verdade.


domingo, 9 de setembro de 2012

A Era do Camaleão


Human Chameleon - Margarita Fields


Tal como eles, mudamos conforme o meio, no nosso caso, o meio social. Somos inconstantes, seguimos o turbilhão. Jamais paramos para pensar “Aonde é que isto me leva?”, tal é a pressa de chegar. Mas chegar onde?
Qualquer que seja o turbilhão, ele só pode desembocar no destino que o pensamento colectivo lhe ditou. Vai o pensamento da massa para ali, e todos vão para ali. Mas se o pensamento da massa indica agora que o caminho é o oposto, eis-nos que vamos pelo caminho contrário sem sequer pestanejar. O que somos? Títeres?
Avança por impulsos a humanidade. Ditados os destinos numa determinada direcção, parece desaparecer a individualidade, característica intrínseca, e o instinto de chegar a algum lado sobrepõe-se à razão. Mas chegar onde?
Não há destino comum que não passe por uma consolidação do pensamento individual. Não há lugar efectivo de chegada enquanto não houver consenso no lugar de partida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Repouso


Pájaro - Jesús Díaz Ferrer

Já as últimas semanas haviam decorrido pardas. O pensamento, fugidio, escusava-se à concentração. As ideias iam e vinham, para depois, entre meias palavras e sem grandes explicações, se refugiarem em recantos da mente quase olvidados. Talvez façam ninho. Talvez proliferem. Ou talvez morram por ali e se tornem apenas resquícios empoeirados e ressequidos.
É tempo, pois, de dar descanso à máquina que alberga a mente, ao corpo que alberga o espírito. É tempo de deixar vaguear livremente os olhos e as vontades. Talvez em Setembro, tal como com as uvas, se possam colher frutos maduros, esperanças de puros néctares.
Aos meus estimados leitores, os votos de boas férias e que o repouso lhes traga sempre algum alimento para alma!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tantos a dormir e tão poucos despertos...

E será que queremos despertar?

Ou será que queremos continuar a pensar que somos livres, não passando porém de autómatos manipulados, possuídos, controlados?

De olhos completamente fechados, aceitamos passivamente viver nas masmorras douradas do sistema, nas garras implacáveis de uma civilização aberrante!




Fonte: http://www.crackinfilms.com/

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sabe que...

Pintura surrealista de Ricardo Fernandez Ortega (nascido em Durango, México, em 1971)

Se me perco na bruma do nada,
se estremeço no anseio de horizontes invisíveis,
se os imagino e preencho de tudo e de coisa nenhuma
p’ra lhes sentir a realidade, a função,
sabe que não é por capricho, nem luxo nem devaneio;
apenas procuro adivinhar-lhes com os olhos da carne
na imensidade que os da alma contemplam, o propósito
que lhes supõe o coração…

E se me perco na noite escura,
se aos tropeços apalpo ilusões informes,
se lhes pego com mão insegura e as cinjo contra o peito
p’ra lhes encurtar a lonjura, a vastidão,
sabe que não é por cegueira, nem sandice nem loucura;
apenas procuro olhá-las com a verdade da alma
e encontrar-lhes a mentira que encarcera a minha vida
nesta infinda solidão…

E se pareço distante, ausente,
se prefiro o silêncio e os pensamentos mudos,
se os albergo e nutro à minha única e absurda maneira
p’ra olhá-los de frente, saber o que são,
sabe que não é por soberba, nem vaidade nem parvoeira;
apenas procuro conhecer-lhes o sentido, e neles busco a causa
do desassossego,  do vazio, do medo; da vida, afinal,
a derradeira razão…

sábado, 14 de abril de 2012

Perguntas Que Não Se Fazem

The Mirror - Frank Markham Skipworth (1854-1929)

Eramos mais que uma meia dúzia. O ruído da conversa banal de hora de almoço, apesar de persistente, não penetrou as defesas que o meu pensamento há muito havia criado para protecção dos seus raciocínios. Subitamente, incapaz de resistir à força da curiosidade suscitada por um pensamento que me habitava havia uns dias, sem quaisquer preâmbulos, disparei:
- Meus caros, por acaso alguma vez se lhes assoma à mente a pergunta “Quem sou eu?” ou “Porque existo?” ou “Que raio ando eu aqui a fazer?”
Os primeiros segundos foram de profundo silêncio.
- E então? Alguma vez fizeram a si próprios este tipo de perguntas? - insistia eu.
- Existo porque penso – retorquiu alguém.
- Não, não é isso – a minha voz denotava impaciência – não quero que me respondam a essas perguntas, quero que me digam se as fazem a vocês próprios. Quero saber se se questionam dessa maneira…
Por entre a silenciosa resposta da maioria, dada com um simples abanar de cabeça em sinal de negação, alguém declara:
- Eu é mais o contrário: penso que vale a pena existir por causa de certas coisas da vida…
Seguiu-se a óbvia gargalhada geral. Segundos passados apenas e já se havia retomado a conversa banal no banal clima de boa disposição.
Olhei em volta. Vi sorrisos. Constatei a boa disposição.
No silêncio que me impus surgiu-me outra questão: serei eu a única que se entristece com a ligeireza com que a maioria das pessoas considera a vida? A única que se assombra com a infinidade de perguntas todavia por responder?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Da Necessidade de Se Vir a Ser Alguma Coisa



Parece-me absurda a necessidade de se vir a ser alguma coisa para além do que já se é. Afigura-se-me como um factor de auto-anulação, um desperdício da natureza própria. O indivíduo que, por essência, já é alguma coisa, despreza totalmente o que é e coloca-se no caminho ilusório do devir, ao serviço da transitoriedade e em detrimento do autoconhecimento e da individualidade. Troca a sua unicidade original pela opaca cópia da imitação.
Ao longo desse caminho, olhos postos numa meta quimérica, o indivíduo luta ferozmente pelo objectivo do momento, insensível e alheio ao contínuo violentar da sua própria individualidade. Não existe tal objectivo. É um logro sem realidade porque é gerado na inconsistência do desejo. É um círculo infinito. O desejo nasce, e sendo satisfeito morre para renascer mais forte, mais exigente, mais enganador, mais embotador, mais castrante.
Ninguém consegue ser algo que não seja já, é um facto. Recém-nascido, criança, jovem, maduro ou velho, é-se o que se é. A quididade está aí, em qualquer altura da vida. Ora o verdadeiro problema reside no devir ilusório, no desejo portanto. Porque quererá o indivíduo vir a ser alguma coisa?
A razão mais evidente, assim à primeira vista, será a insuficiência e a inferioridade que o indivíduo sente em si mesmo. Porque não se busca, porque permanece interiormente inexplorado, não se reconhece como um todo integral, completo. Tortura-se então no vasto deserto do desconhecimento de si próprio e convence-se de uma aparente incompletude. Há um vazio que lhe morde a alma. Uma solidão que lhe alimenta o medo e uma pequenez que dele advém. Fugindo de si mesmo, o instinto gregário leva-o à associação cega. Porque não sabe ser plural na sua qualidade de único, na sua individualidade exclusiva, eis que, por suas mãos, tece o seu próprio drama!
No patriotismo, porque perdido e sem referências, pensa que se encontra. E cria divisão entre os semelhantes. Na religião, porque inconsciente de si e desprovido de autoconhecimento, acredita que está a salvo. E cria divisão entre os semelhantes. No partido político, porque egocêntrico e temeroso, crê-se justo e corajoso. E cria divisão entre os semelhantes. Na classe social, no estilo de vida, no clube de futebol, nos bens materiais, porque vazio e insignificante, julga encontrar importância e plenitude. E cria divisão entre os semelhantes. Na agregação, no sentimento de pertencer a algo maior, porque pequeno e impotente, pensa encontrar segurança.
Dividido e fragmentado, firme no caminho do vir a ser, que não é senão desejo de ser algo incitado pelo esquecimento do que se é, o indivíduo estropia cada vez mais o seu carácter humano. Que aberrante mutação o esperará num futuro gerado na insustentabilidade do devir?

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Silêncio das Palavras

L'Ecole du Silence - 1929 (Jean Delville, 1867 - 1953)

  
Comunicar é bastante difícil para quem não partilha da quotidiana e fútil azáfama. Falar do tempo é uma absurda trivialidade e reduz o diálogo ao nível da especulação pateta. Todos os demais assuntos com que somos confrontados diariamente ou se classificam na patetice especulativa ou no absurdo redutor, e apenas deixam como rasto o eco de um insípido e incómodo cacarejo.
Tenho por isso optado por ficar calada. Não que me não corroam por dentro ácidas respostas com lesta vontade de expressão exterior, mas a antevisão da estupidez e inutilidade do diálogo que suscitariam faz com que mantenha firme a decisão de manter os lábios hermeticamente fechados.
Talvez pelo manto de nuvens cinzentas que impedem a plenitude da acção do sol, ou talvez pelo processo rítmico da vida que nos balança ciclicamente de um polo a outro, a alegria expansiva transforma-se num sentimento sombrio e introspectivo. É então que me pergunto se a palavra falada terá alguma serventia, salvaguardada porém aquela raríssima excepção em que é usada exactamente ao mesmo nível por ambos os interlocutores e serve de trampolim para uma comunicação que vai muito além dela.
Cada vez mais lhe vejo menos utilidade. Cada vez mais lhe vejo o aspecto de arma de arremesso e menos o aspecto de veículo de exploração e aprendizagem. Cada vez mais a vejo como astuciosa articulação e menos como instrumento de compreensão.
Prefiro, neste momento, a palavra escrita como reflexo da palavra não proferida que andou, muda, curiosa e bailariqueira, pelos silêncios e horizontes infinitos do pensamento. Pode não reflectir, sobre o fundo em que se estampa, qualquer verdade. Pode escrever-se injectando-lhe em cada letra um milhão de partículas de dúvida, um milhão de meias verdades ou de francas falsidades. Mas está aí, registada para memória futura, e tomará tantos matizes quantos os olhares que se lhe deitem ao lê-la.

Entre todas estas vantagens, tem a palavra escrita uma outra que em valor todas excede: porque é virgem filha do silêncio, não tendo sido estraçalhada pelo ruído da palavra falada, mantém intacta e pura a essência da fonte de onde proveio!


quarta-feira, 21 de março de 2012

Deixai-me em Paz

Quereis que pense o que pensais,
que aja como agis, viva como viveis.
De dedo apontado, semblante carregado em prenúncio d’ameaça,
a cada hora mo lembrais. Pois perdeis o vosso tempo!
Não faço tenções de provar tal tormento.
Prefiro cair em desgraça a reinar no atoleiro que criastes,
a fingir submissão a um deus inventado,
a ser escrava de um sistema desumano, absurdo, calculado.
Julgais acaso que sou espantalho, a quem encheis de palha
e logo abandonais à sua sorte, esperando que faça o vosso trabalho?
Pois se de nada preciso, nem de palha sequer,
p’ra vos dizer com todo o siso que tudo o que fazeis não é viver!
Quando muito vegetais, andais p’ra lá e p’ra cá, sem rumo, sem norte.
 
E não me venhais com essas tretas
de que arderei no inferno por infame e blasfema,
que com a mesma régua vos está medida e aplicada igual pena
não no reino do Demo, mas aqui mesmo, no vosso limbo terreno.
Ao contrário de vós, eu mesma talho a minha sorte!

Deixai-me em paz com as crenças, com o certo e o errado,
causadores que são das desavenças, da guerra, do desaguisado.
Não me peçais nem à alma nem à razão quaisquer pressas,
que eu, sem elas, sem vós e sem um deus,
sem líder, sem sistema, sem qualquer simbólica cor,
sem toda a inútil parafernália que criais,
sem falar, sem olhar, sem me mover, sem ruído, conflito ou dissabor,
a cada segundo viro o mundo às avessas
e vivo como quero, penso, livre e plenamente, sem meças!

                               Isabel G



No Dia Mundial da Poesia, transcrevo os meus dois poemas favoritos de dois dos meus poetas preferidos:



 


Da Minha Ideia do Mundo


Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser…
Escada absoluta sem degraus…
Visão que se não pode ver 

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido… 

                         Fernando Pessoa




  
 
Cântico Negro
 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe  

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...  

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?  

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...  

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.  

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...  

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...  

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.  

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí! 

                                      José Régio

quarta-feira, 14 de março de 2012

Prisioneiros Voluntários


Tela de René Cabodi


“Eu penso que é importante compreender que a liberdade está no princípio e não no fim. Pensamos que a liberdade é algo a alcançar, que a libertação é um estado de espírito a obter gradualmente através do tempo, através de várias práticas; mas para mim, esta é uma abordagem totalmente errada. A liberdade não é para ser alcançada, a libertação não é uma coisa a obter. A liberdade, ou libertação, é um estado de espírito que é essencial à descoberta de qualquer verdade, de qualquer realidade; por conseguinte, ela não pode ser um ideal; ela tem de existir mesmo de início. Sem liberdade no princípio não podem existir momento de compreensão directa porque todo o pensamento está então limitado, condicionado. Se a sua mente estiver atada a qualquer conclusão, a qualquer experiência, a qualquer forma de conhecimento ou crença, ela não é livre; e uma mente assim não pode perceber o que é a verdade.”
Jiddu Krishnamurti



Assim há que começar, assim há que partir à descoberta da vida. Com a liberdade, intacta e imaculada, como única bagagem.
Mas são poucos os que assim modestamente ataviados põem pés a caminho pela vida fora. Os outros, os muitos, esses enchem-se de bagagem. Malas e maletas, sacos e sacas, até baús que trazem a reboque de um passado que nem sequer é deles.
Desde tenra idade que os enchem de bagagem. “Ouviste rapaz? O meu clube é o maior! Tens de ser do meu clube!” repete o pai entusiasticamente quase até à exaustão. “Meu filho, já disseste as tuas orações? Olha que nosso senhor castiga-te!” admoesta a mãe a um ritmo diário.
À medida que o tempo decorre, a liberdade vai sendo mutilada de diversas maneiras. “Grande vitória, a do nosso partido, hein pá?! Temos que lutar pela liberdade!” exclama o pai enquanto dá ao rapaz uma orgulhosa palmada nas costas. “Sabes filha, tens de ter estatuto social se queres que te respeitem!” aconselha ciosamente a mãe.
Entre conselhos e deveres, entre tradições e obrigações, entre crenças e dogmas, entre patriotismos e idolatrias, o indivíduo consente placidamente em que lhe encham malas e baús. E quanto mais bagagem lhe acrescentam, mais liberdade lhe retiram. A vida transforma-se-lhe num contínuo e ensurdecedor ruído exterior, num movimento dirigido e condicionado, num incessante emalar de conceitos, preconceitos, ideias e ideologias prontos a consumir, nunca tocados pelo questionamento, nunca abordados pela dúvida, nunca explorados sob ângulos distintos. Arrasta-se o indivíduo penosamente pela vida fora, vergado pelo peso da bagagem, e em vão procurando por entre a tralha acumulada, que sempre lhe serviu de prisão, a liberdade que um dia possuiu sem se dar conta.
Milhões de indivíduos procuram fora o que dentro de si truncaram.
Mas alguns, muito poucos, tendo-se apercebido da inigualável importância da liberdade, pegaram nela quando ainda quase intacta, e lançando fora as poucas tralhas que todavia carregavam, com ela pavimentaram o caminho da sua vida.
Enquanto ao homem de excessiva bagagem, a cada passo que dá, parece afunilar-se-lhe o caminho, ao homem imbuído de liberdade, perde-se-lhe a vista, qual vertigem, num horizonte infinito e sempre mais amplo.

terça-feira, 6 de março de 2012

As gentes do deserto



Não são apenas as terras do interior que sofrem do flagelo da desertificação. É todo o interior. O interior humano. Fogem as gentes do natural, do sadio interior e aglomeram-se no irreal, no doentio exterior.

Estão secas as gentes. Se lhes perguntamos algo respondem-nos com aspereza, com custo, com esforço, como uma engrenagem mal oleada obrigada a funcionar. Mas sempre distantes, sobranceiras, como se valorizando a resposta e menosprezando o inquiridor. Se tivermos a sorte de que a elas lhes seja um dia favorável, quiçá lhes vejamos esboçado, ainda que logo se desvaneça, o início de um sorriso. Mas se foi o azar que lhes tocou ao levantar, será um esgar desagradavelmente azedo e antipático que acompanhará uma resposta geralmente monossilábica e desprovida de qualquer contacto visual. Não há comunicação, permuta, palavra ainda não pronunciada que o olhar, porque os olhos estão nos olhos, já adivinhou.
Estão secas as gentes. Dir-se-ia que as afinidades inerentes à espécie exercem a função contrária e em vez de galvanizarem, repelem. Mas haveria que ver como lhes brilham e se lhes dilatam as pupilas perante trivialidades inanimadas: um objecto caro, um agasalho de marca, um espectáculo ou um jogo.
São estéreis as gentes. Interpeladas, agem e reagem da mesma forma. Ajustam-se, solícitas e na perfeição, aos padrões vigentes. Automatizam-se e estereotipam-se com o mesmo à vontade com que atiram ao chão um caroço ou uma beata. Cegas, mente embotada, nada geram no interior, mas exteriormente proliferam como erva daninha. Áridos de princípios, carecidos de valores, infrutíferos e improdutivos, albergando sentimentos emurchecidos e sequiosos, são estes os interiores desérticos e monocromáticos das gentes de hoje.
Giram e rodopiam entre irrealidades, feitas piões que alguém lançou, as gentes de hoje. Envolvem-se e revolvem-se entre palavras velhas cujo sentido primeiro se perdeu no folhear do tempo. Enchem cérebros e mentes de ideias e teorias, feitas poeirentos repositórios de pensamentos alheios. Espolinham-se na matéria grotesca do exterior, feitas alvos do alheamento e da perversão.
Povoam-se as ilusões, desertificam-se as almas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

J. Rentes de Carvalho e as Duas Perguntas

J. Rentes de Carvalho

Um dia descobri J. Rentes de Carvalho e desde aí sou leitora assídua do seu blogue Tempo Contado. Não deixo de ler nenhum post seu. E porquê? Porque J. Rentes de Carvalho possui aquela característica inquisitiva e crítica, aquele olhar incisivo e perscrutante e aquele espírito irrequieto e lutador, que caracterizam a pessoa que vive inteligentemente consciente de si, dos outros e do mundo que a rodeia. Rentes de Carvalho mostra tudo isso através da sua escrita rica e elegante, ora profundamente séria, ora orlada de humor. E por vezes até mistura o sério com o divertido, imprimindo desse modo uma força ainda mais poderosa ao que escreve.

Ora, no mês passado, decidiu J. Rentes de Carvalho fazer um concurso a que chamou Duas Perguntas. Ciente das minhas limitações e da minha falta de conhecimentos, decidi, ainda assim, concorrer. Assim fiz. E fi-lo secretamente acalentando o impossível desejo de ver respondidas por Rentes de Carvalho, a quem tanto admiro, as minhas perguntas.
E não é que ganhei!? Mas mais, muito mais do que o prémio, que obviamente também agradeço muito, ganhei as respostas de Rentes de Carvalho às minhas perguntas. E essas respostas vieram consolidar, de forma inequívoca, o que eu dele já antes pensava e lho fizera saber: “…a sua escrita, prezado Rentes de Carvalho, essa é elegante, pejada de conteúdo, sabiamente fundamentada e enriquecida, não com uma linguagem pedante e pesada mas com, creio eu, a linguagem que advém de todo um percurso de vida norteado por uma sensatez e uma acutilância que a grande maioria dos seres infelizmente não possui.”
Eis as minhas perguntas e as respostas de Rentes de Carvalho:
IG: Viajado como é, pelo mundo e pela vida, e se a determinada altura lhe desse por fazer um balanço introspectivo, gostaria que me dissesse, à luz desse balanço, se, para si, são as circunstâncias que fazem o homem ou, antes pelo contrário, o homem forja e molda as suas próprias circunstâncias?
JRC: Certezas não tenho, mas se fosse possível forjar e moldar as próprias circunstâncias, creio que a minha vida teria sido bem diferente, sem aventura, com menos sobressaltos, moderada nos resultados. Por outro lado, isso implicaria também a perda de momentos de muita adrenalina, de sentir extrema alegria, alguns êxtases, viver revelações surpreendentes, ter motivos para admiração e paixão. Posso dar-me a ideia de, uma vez ou outra, ter sido o timoneiro da barca, mas a força da corrente sempre pôde mais e levou a melhor sobre a minha perícia ao leme.
IG: Como leitora diária e atenta do seu blogue infiro que são muitas as características, digamos, menos nobres do ser humano que lhe causam sentida e sincera tristeza. A minha pergunta é, por oposição à minha afirmação, que resultados, que efeitos, da sua escrita, lhe causaram e continuam a causar-lhe uma profunda e genuína alegria?
JRC: Uma das desagradáveis características da alegria, mesmo profunda e genuína, é a velocidade com que perde impacto e se vai esvaindo da memória. Tivesse ela a força e a permanência da tristeza. Mas eu seria desagradecido e hipócrita se quisesse esconder ou diminuir as alegrias que a escrita me tem dado. Conto por alto: ver impresso o meu primeiro romance; os primeiros artigos de jornalismo; o impacto de Com os Holandeses no público holandês; as excelentes críticas aos meus livros na Holanda, na Bélgica, na Alemanha, no Le Monde e no International Herald Tribune; o êxito de Portugal, um guia para amigos; a recente edição da minha obra em Portugal.
São de facto muitas, grandes e pequenas, as alegrias que me têm vindo da escrita, mas entre as mais íntimas conto os testemunhos dos leitores, quando me dizem como, e por que motivo, os tocou um ou outro livro meu. 

Estimado J. Rentes de Carvalho, muito obrigada!
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