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| L'Ecole du Silence - 1929 (Jean Delville, 1867 - 1953) |
Comunicar é bastante difícil para quem não partilha da
quotidiana e fútil azáfama. Falar do tempo é uma absurda trivialidade e reduz o
diálogo ao nível da especulação pateta. Todos os demais assuntos com que somos
confrontados diariamente ou se classificam na patetice especulativa ou no
absurdo redutor, e apenas deixam como rasto o eco de um insípido e incómodo cacarejo.
Tenho por isso optado por ficar calada. Não que me não
corroam por dentro ácidas respostas com lesta vontade de expressão exterior,
mas a antevisão da estupidez e inutilidade do diálogo que suscitariam faz com
que mantenha firme a decisão de manter os lábios hermeticamente fechados.
Talvez pelo manto de nuvens cinzentas que impedem a
plenitude da acção do sol, ou talvez pelo processo rítmico da vida que nos
balança ciclicamente de um polo a outro, a alegria expansiva transforma-se num
sentimento sombrio e introspectivo. É então que me pergunto se a palavra falada
terá alguma serventia, salvaguardada porém aquela raríssima excepção em que é
usada exactamente ao mesmo nível por ambos os interlocutores e serve de
trampolim para uma comunicação que vai muito além dela.
Cada vez mais lhe vejo menos utilidade. Cada vez mais lhe vejo
o aspecto de arma de arremesso e menos o aspecto de veículo de exploração e
aprendizagem. Cada vez mais a vejo como astuciosa articulação e menos como
instrumento de compreensão.
Prefiro, neste momento, a palavra escrita como reflexo da
palavra não proferida que andou, muda, curiosa e bailariqueira, pelos silêncios
e horizontes infinitos do pensamento. Pode não reflectir, sobre o fundo em que
se estampa, qualquer verdade. Pode escrever-se injectando-lhe em cada letra um
milhão de partículas de dúvida, um milhão de meias verdades ou de francas
falsidades. Mas está aí, registada para memória futura, e tomará tantos matizes
quantos os olhares que se lhe deitem ao lê-la.
Entre todas estas vantagens, tem a palavra escrita uma outra
que em valor todas excede: porque é virgem filha do silêncio, não tendo
sido estraçalhada pelo ruído da palavra falada, mantém intacta e pura a
essência da fonte de onde proveio!


















