terça-feira, 3 de abril de 2012

O Silêncio das Palavras

L'Ecole du Silence - 1929 (Jean Delville, 1867 - 1953)

  
Comunicar é bastante difícil para quem não partilha da quotidiana e fútil azáfama. Falar do tempo é uma absurda trivialidade e reduz o diálogo ao nível da especulação pateta. Todos os demais assuntos com que somos confrontados diariamente ou se classificam na patetice especulativa ou no absurdo redutor, e apenas deixam como rasto o eco de um insípido e incómodo cacarejo.
Tenho por isso optado por ficar calada. Não que me não corroam por dentro ácidas respostas com lesta vontade de expressão exterior, mas a antevisão da estupidez e inutilidade do diálogo que suscitariam faz com que mantenha firme a decisão de manter os lábios hermeticamente fechados.
Talvez pelo manto de nuvens cinzentas que impedem a plenitude da acção do sol, ou talvez pelo processo rítmico da vida que nos balança ciclicamente de um polo a outro, a alegria expansiva transforma-se num sentimento sombrio e introspectivo. É então que me pergunto se a palavra falada terá alguma serventia, salvaguardada porém aquela raríssima excepção em que é usada exactamente ao mesmo nível por ambos os interlocutores e serve de trampolim para uma comunicação que vai muito além dela.
Cada vez mais lhe vejo menos utilidade. Cada vez mais lhe vejo o aspecto de arma de arremesso e menos o aspecto de veículo de exploração e aprendizagem. Cada vez mais a vejo como astuciosa articulação e menos como instrumento de compreensão.
Prefiro, neste momento, a palavra escrita como reflexo da palavra não proferida que andou, muda, curiosa e bailariqueira, pelos silêncios e horizontes infinitos do pensamento. Pode não reflectir, sobre o fundo em que se estampa, qualquer verdade. Pode escrever-se injectando-lhe em cada letra um milhão de partículas de dúvida, um milhão de meias verdades ou de francas falsidades. Mas está aí, registada para memória futura, e tomará tantos matizes quantos os olhares que se lhe deitem ao lê-la.

Entre todas estas vantagens, tem a palavra escrita uma outra que em valor todas excede: porque é virgem filha do silêncio, não tendo sido estraçalhada pelo ruído da palavra falada, mantém intacta e pura a essência da fonte de onde proveio!


quarta-feira, 21 de março de 2012

Deixai-me em Paz

Quereis que pense o que pensais,
que aja como agis, viva como viveis.
De dedo apontado, semblante carregado em prenúncio d’ameaça,
a cada hora mo lembrais. Pois perdeis o vosso tempo!
Não faço tenções de provar tal tormento.
Prefiro cair em desgraça a reinar no atoleiro que criastes,
a fingir submissão a um deus inventado,
a ser escrava de um sistema desumano, absurdo, calculado.
Julgais acaso que sou espantalho, a quem encheis de palha
e logo abandonais à sua sorte, esperando que faça o vosso trabalho?
Pois se de nada preciso, nem de palha sequer,
p’ra vos dizer com todo o siso que tudo o que fazeis não é viver!
Quando muito vegetais, andais p’ra lá e p’ra cá, sem rumo, sem norte.
 
E não me venhais com essas tretas
de que arderei no inferno por infame e blasfema,
que com a mesma régua vos está medida e aplicada igual pena
não no reino do Demo, mas aqui mesmo, no vosso limbo terreno.
Ao contrário de vós, eu mesma talho a minha sorte!

Deixai-me em paz com as crenças, com o certo e o errado,
causadores que são das desavenças, da guerra, do desaguisado.
Não me peçais nem à alma nem à razão quaisquer pressas,
que eu, sem elas, sem vós e sem um deus,
sem líder, sem sistema, sem qualquer simbólica cor,
sem toda a inútil parafernália que criais,
sem falar, sem olhar, sem me mover, sem ruído, conflito ou dissabor,
a cada segundo viro o mundo às avessas
e vivo como quero, penso, livre e plenamente, sem meças!

                               Isabel G



No Dia Mundial da Poesia, transcrevo os meus dois poemas favoritos de dois dos meus poetas preferidos:



 


Da Minha Ideia do Mundo


Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser…
Escada absoluta sem degraus…
Visão que se não pode ver 

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido… 

                         Fernando Pessoa




  
 
Cântico Negro
 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe  

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...  

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?  

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...  

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.  

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...  

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...  

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.  

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí! 

                                      José Régio

quarta-feira, 14 de março de 2012

Prisioneiros Voluntários


Tela de René Cabodi


“Eu penso que é importante compreender que a liberdade está no princípio e não no fim. Pensamos que a liberdade é algo a alcançar, que a libertação é um estado de espírito a obter gradualmente através do tempo, através de várias práticas; mas para mim, esta é uma abordagem totalmente errada. A liberdade não é para ser alcançada, a libertação não é uma coisa a obter. A liberdade, ou libertação, é um estado de espírito que é essencial à descoberta de qualquer verdade, de qualquer realidade; por conseguinte, ela não pode ser um ideal; ela tem de existir mesmo de início. Sem liberdade no princípio não podem existir momento de compreensão directa porque todo o pensamento está então limitado, condicionado. Se a sua mente estiver atada a qualquer conclusão, a qualquer experiência, a qualquer forma de conhecimento ou crença, ela não é livre; e uma mente assim não pode perceber o que é a verdade.”
Jiddu Krishnamurti



Assim há que começar, assim há que partir à descoberta da vida. Com a liberdade, intacta e imaculada, como única bagagem.
Mas são poucos os que assim modestamente ataviados põem pés a caminho pela vida fora. Os outros, os muitos, esses enchem-se de bagagem. Malas e maletas, sacos e sacas, até baús que trazem a reboque de um passado que nem sequer é deles.
Desde tenra idade que os enchem de bagagem. “Ouviste rapaz? O meu clube é o maior! Tens de ser do meu clube!” repete o pai entusiasticamente quase até à exaustão. “Meu filho, já disseste as tuas orações? Olha que nosso senhor castiga-te!” admoesta a mãe a um ritmo diário.
À medida que o tempo decorre, a liberdade vai sendo mutilada de diversas maneiras. “Grande vitória, a do nosso partido, hein pá?! Temos que lutar pela liberdade!” exclama o pai enquanto dá ao rapaz uma orgulhosa palmada nas costas. “Sabes filha, tens de ter estatuto social se queres que te respeitem!” aconselha ciosamente a mãe.
Entre conselhos e deveres, entre tradições e obrigações, entre crenças e dogmas, entre patriotismos e idolatrias, o indivíduo consente placidamente em que lhe encham malas e baús. E quanto mais bagagem lhe acrescentam, mais liberdade lhe retiram. A vida transforma-se-lhe num contínuo e ensurdecedor ruído exterior, num movimento dirigido e condicionado, num incessante emalar de conceitos, preconceitos, ideias e ideologias prontos a consumir, nunca tocados pelo questionamento, nunca abordados pela dúvida, nunca explorados sob ângulos distintos. Arrasta-se o indivíduo penosamente pela vida fora, vergado pelo peso da bagagem, e em vão procurando por entre a tralha acumulada, que sempre lhe serviu de prisão, a liberdade que um dia possuiu sem se dar conta.
Milhões de indivíduos procuram fora o que dentro de si truncaram.
Mas alguns, muito poucos, tendo-se apercebido da inigualável importância da liberdade, pegaram nela quando ainda quase intacta, e lançando fora as poucas tralhas que todavia carregavam, com ela pavimentaram o caminho da sua vida.
Enquanto ao homem de excessiva bagagem, a cada passo que dá, parece afunilar-se-lhe o caminho, ao homem imbuído de liberdade, perde-se-lhe a vista, qual vertigem, num horizonte infinito e sempre mais amplo.

terça-feira, 6 de março de 2012

As gentes do deserto



Não são apenas as terras do interior que sofrem do flagelo da desertificação. É todo o interior. O interior humano. Fogem as gentes do natural, do sadio interior e aglomeram-se no irreal, no doentio exterior.

Estão secas as gentes. Se lhes perguntamos algo respondem-nos com aspereza, com custo, com esforço, como uma engrenagem mal oleada obrigada a funcionar. Mas sempre distantes, sobranceiras, como se valorizando a resposta e menosprezando o inquiridor. Se tivermos a sorte de que a elas lhes seja um dia favorável, quiçá lhes vejamos esboçado, ainda que logo se desvaneça, o início de um sorriso. Mas se foi o azar que lhes tocou ao levantar, será um esgar desagradavelmente azedo e antipático que acompanhará uma resposta geralmente monossilábica e desprovida de qualquer contacto visual. Não há comunicação, permuta, palavra ainda não pronunciada que o olhar, porque os olhos estão nos olhos, já adivinhou.
Estão secas as gentes. Dir-se-ia que as afinidades inerentes à espécie exercem a função contrária e em vez de galvanizarem, repelem. Mas haveria que ver como lhes brilham e se lhes dilatam as pupilas perante trivialidades inanimadas: um objecto caro, um agasalho de marca, um espectáculo ou um jogo.
São estéreis as gentes. Interpeladas, agem e reagem da mesma forma. Ajustam-se, solícitas e na perfeição, aos padrões vigentes. Automatizam-se e estereotipam-se com o mesmo à vontade com que atiram ao chão um caroço ou uma beata. Cegas, mente embotada, nada geram no interior, mas exteriormente proliferam como erva daninha. Áridos de princípios, carecidos de valores, infrutíferos e improdutivos, albergando sentimentos emurchecidos e sequiosos, são estes os interiores desérticos e monocromáticos das gentes de hoje.
Giram e rodopiam entre irrealidades, feitas piões que alguém lançou, as gentes de hoje. Envolvem-se e revolvem-se entre palavras velhas cujo sentido primeiro se perdeu no folhear do tempo. Enchem cérebros e mentes de ideias e teorias, feitas poeirentos repositórios de pensamentos alheios. Espolinham-se na matéria grotesca do exterior, feitas alvos do alheamento e da perversão.
Povoam-se as ilusões, desertificam-se as almas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

J. Rentes de Carvalho e as Duas Perguntas

J. Rentes de Carvalho

Um dia descobri J. Rentes de Carvalho e desde aí sou leitora assídua do seu blogue Tempo Contado. Não deixo de ler nenhum post seu. E porquê? Porque J. Rentes de Carvalho possui aquela característica inquisitiva e crítica, aquele olhar incisivo e perscrutante e aquele espírito irrequieto e lutador, que caracterizam a pessoa que vive inteligentemente consciente de si, dos outros e do mundo que a rodeia. Rentes de Carvalho mostra tudo isso através da sua escrita rica e elegante, ora profundamente séria, ora orlada de humor. E por vezes até mistura o sério com o divertido, imprimindo desse modo uma força ainda mais poderosa ao que escreve.

Ora, no mês passado, decidiu J. Rentes de Carvalho fazer um concurso a que chamou Duas Perguntas. Ciente das minhas limitações e da minha falta de conhecimentos, decidi, ainda assim, concorrer. Assim fiz. E fi-lo secretamente acalentando o impossível desejo de ver respondidas por Rentes de Carvalho, a quem tanto admiro, as minhas perguntas.
E não é que ganhei!? Mas mais, muito mais do que o prémio, que obviamente também agradeço muito, ganhei as respostas de Rentes de Carvalho às minhas perguntas. E essas respostas vieram consolidar, de forma inequívoca, o que eu dele já antes pensava e lho fizera saber: “…a sua escrita, prezado Rentes de Carvalho, essa é elegante, pejada de conteúdo, sabiamente fundamentada e enriquecida, não com uma linguagem pedante e pesada mas com, creio eu, a linguagem que advém de todo um percurso de vida norteado por uma sensatez e uma acutilância que a grande maioria dos seres infelizmente não possui.”
Eis as minhas perguntas e as respostas de Rentes de Carvalho:
IG: Viajado como é, pelo mundo e pela vida, e se a determinada altura lhe desse por fazer um balanço introspectivo, gostaria que me dissesse, à luz desse balanço, se, para si, são as circunstâncias que fazem o homem ou, antes pelo contrário, o homem forja e molda as suas próprias circunstâncias?
JRC: Certezas não tenho, mas se fosse possível forjar e moldar as próprias circunstâncias, creio que a minha vida teria sido bem diferente, sem aventura, com menos sobressaltos, moderada nos resultados. Por outro lado, isso implicaria também a perda de momentos de muita adrenalina, de sentir extrema alegria, alguns êxtases, viver revelações surpreendentes, ter motivos para admiração e paixão. Posso dar-me a ideia de, uma vez ou outra, ter sido o timoneiro da barca, mas a força da corrente sempre pôde mais e levou a melhor sobre a minha perícia ao leme.
IG: Como leitora diária e atenta do seu blogue infiro que são muitas as características, digamos, menos nobres do ser humano que lhe causam sentida e sincera tristeza. A minha pergunta é, por oposição à minha afirmação, que resultados, que efeitos, da sua escrita, lhe causaram e continuam a causar-lhe uma profunda e genuína alegria?
JRC: Uma das desagradáveis características da alegria, mesmo profunda e genuína, é a velocidade com que perde impacto e se vai esvaindo da memória. Tivesse ela a força e a permanência da tristeza. Mas eu seria desagradecido e hipócrita se quisesse esconder ou diminuir as alegrias que a escrita me tem dado. Conto por alto: ver impresso o meu primeiro romance; os primeiros artigos de jornalismo; o impacto de Com os Holandeses no público holandês; as excelentes críticas aos meus livros na Holanda, na Bélgica, na Alemanha, no Le Monde e no International Herald Tribune; o êxito de Portugal, um guia para amigos; a recente edição da minha obra em Portugal.
São de facto muitas, grandes e pequenas, as alegrias que me têm vindo da escrita, mas entre as mais íntimas conto os testemunhos dos leitores, quando me dizem como, e por que motivo, os tocou um ou outro livro meu. 

Estimado J. Rentes de Carvalho, muito obrigada!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dissertação sobre o Anonimato

O anónimo esconde o rosto mas deixa perigosamente à vista o seu carácter!
Sempre fiz um esforço para tentar compreender o uso do anonimato. Compreendê-lo pela positiva, claro está. Tentar perceber nele uma causa justa, vislumbrar-lhe uma pontinha de nobreza, enfim, algo que o legitimasse na proporção directa do seu cada vez mais frequente uso. Nada. Nunca fui capaz de encontrar nada sensato que o desculpasse.
Portanto, e até prova em contrário, o anonimato continua a ser para mim a mais comum e estúpida forma de cobardia. O indivíduo cobarde fervilha de emoção ao imaginar-se corajoso. Infla-se-lhe o ego, desabrido desata-se-lhe a voar o pensamento, e a simples visão mental da coragem e da bravura provoca-lhe um quase “orgásmico” estremecimento. Mas não passa disso mesmo: imaginação. Na realidade, o indivíduo cobarde é um indivíduo que não amadureceu. Estará talvez numa adolescência tardia em que o assumir de responsabilidades e a tomada de consciência do que é estão ao nível da importância de um jogo de futebol ou de uma noite de copos; estará numa adolescência a destempo em que a imaginação e a fantasia constituem uma saída viável para o medo de enfrentar a realidade, achando portanto preferível sonhar eternamente com a queca que haveria de dar à loira da turma em vez de enfrentar, em resposta à sua solicitação, uma frustrante recusa ou, ainda pior, uma lancinante zombaria.
O anonimato pode, portanto, significar um escudo de protecção, uma forma de evitar a exposição directa à realidade frustrante e dolorosa. Pode, também, significar uma auto-estima muito baixa, uma auto-confiança quase inexistente, e neste caso o anonimato funciona como um grito de socorro, um pedido de atenção, uma necessidade de mostrar aos outros que se existe.
O anónimo precisa de medir forças para se alhear da sua cobardia, anseia pela comparação com os outros para poder calar a voz que lhe sussurra “tu não és tão bom quanto eles”. O anónimo opina acerca de tudo, do que sabe e do que não sabe, tentando provocar reacções; e cada reacção significa, para ele, a importância, a confiança, a atenção que não consegue encontrar em si próprio por si próprio.
Não merece, pois, o anónimo resposta alguma. Qualquer uma que se lhe desse seria como presentear o ébrio com uma garrafa de vinho. Não merece o anónimo um laivo de credibilidade já que tudo o que transmite advém de raciocínios desviantes. Mas merece, isso sim, compaixão.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ritmos do Quotidiano

Eos, deusa grega da Aurora
O levantar é sempre uma agradável perspectiva. A aurora que Eos mais uma vez despontou é a antecâmara do novo, um renascer sempre diverso. Qualquer nuvem, mais ou menos densa, que tivesse ensombrecido a alma no dia anterior por certo se haveria dissipado durante a noite, enquanto corpo e mente serenamente se entregavam aos cuidados de Hipnos e Morfeu. Surge, por isso, sempre radiante e pleno, o crepúsculo matutino, seja qual for a cor de que se veste.
Desde o levantar até à fracção de segundo anterior ao primeiro contacto com a balbúrdia mundana, o viver é um fluir constante do pensamento, um brotar de ideias, um confortável e simples existir em regiões insusceptíveis de definição. O funcionamento da mente e do corpo é natural, espontâneo, não forçado, sem tensões. Sob estas condições em que, possante e firme, coexiste uma inexplicável liberdade, sou não sendo eu, sou sem nome e sem forma, sou o que nesse momento é. E assim vivo até ao instante em que a porta se abre para me deixar sair.
Hemera, deusa grega do Dia
Às mãos de Hemera começa o dia e instala-se então a desordem, a confusão. Filas de trânsito, manobras insuspeitadas, travagens bruscas, correrias e ruído, ruído, ruído. E eis a vida em suspenso. A partir de agora, e até que o sol se ponha indiciando o almejado regresso, o comportamento mecanizado, um estranho colete-de-forças que estrangula o fluxo da vida, preencherá as horas. Horas em que permanecer sã é titânico desafio, em que os estereótipos entram sem convite e fervem na corrente sanguínea tentando transfigurar incautos e crédulos. Horas em que as acções, as atitudes, as palavras, as opiniões, são simples artigos em série que abastecem o ávido consumidor do paradigma vigente. Horas de tal efemeridade e falsidade que até os sensatos pensamentos tidos na alvorada, que então, no afã de alcançar o divino, se moviam por entre o perfeito e o sublime, parecem agora, se lembrados, tão assustadoramente irracionais que mais se assemelham a bizarras esquizofrenias ilustradas em forma de imagens mentais.

Nix, deusa grega da Noite
Hespéra, deusa
grega do Crepúsculo
O sol ao desaparecer vai deixando o horizonte pintado de cores irreais cuidadosamente escolhidas por Hespéra. À medida que se encurta a distância entre o inferno mecanizado da agitação da vida fingida e o paraíso ansiado da solidão e do silêncio, o fluxo da vida, agora liberto, retoma gradualmente rumo e ritmo. Vão-se entregando a luz e a cor do crepúsculo, suave e lentamente, à escuridão do manto que Nix estende.

E antes de voltar ao reparador regaço de Hipnos e de aceitar as oferendas de Morfeu, aí estou eu outra vez sendo, não eu, mas o que é nesse momento.



Hypnos and Thanatos, Sleep and His Half-Brother Death by John William Waterhouse


Nota: Eos, Hemera, Hespéra e Nix, pinturas de William-Adolphe Bouguereau

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sodoma e Gomorra ou a vida aviltada

Jan Brueghel the Elder, Sodoma e Gomorra

Quando a vida é tratada como mero produto financeiro, algo está visceralmente mal! Quando a vida serve de objecto de apostas em que o protagonista é o vil metal, algo está inegavelmente putrefacto na mente e no coração da humanidade!
Soam cada vez mais fortes as badaladas da decadência! E cada vez mais destemidos, cruéis e ignóbeis se mostram os monstros da perversão! Qual Sodoma e Gomorra, a passos largos caminhamos para a esterilidade de sentimentos, para a aridez de princípios, para a secura do coração. Cada vez mais nos aproximamos de uma era glaciar da alma!
E não há deus que valha aos homens, que o deus que há foi o que eles criaram à sua vil imagem!


P.S.: P.f. siga os links do texto!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Discernimento

Antonio Balestra, A Virtude Defendendo a Educação da Ignorância e do Vício


Ignorância não é não saber ler nem escrever, é não saber discernir. Inteligência não é informação, é saber discernir apesar da informação. E discernimento não é nem cultura nem informação, é percepção sem barreiras, sem condicionamentos, é compreensão instantânea e livre e ilimitada, é a leitura da vida feita com os olhos da alma.

A informação e a (in)cultura actualmente consumidas cegam o indivíduo. Este, já de si algo avesso a ver as coisas com olhos de ver e a exercitar a arte de pensar pelos próprios miolos, deixa-se deslumbrar e atordoar com todo o género de brinquedos, divertimentos e distracções. E de cérebro entontecido e limitado, de mente turvada pela confusão e cheia de raciocínios de segunda mão, de intelecto imbecilizado e cristalizado pela cultivação do disparate, lá ruma ele para onde ruma a turba. E vai cego mas ufano, mecanizado mas contente, morto mas achando-se vivo.
Não sei que espécie de torpor lhe adormece o entendimento. Nem que espécie de embrutecimento lhe rouba a ânsia da auto-exploração e da auto-descoberta. E muito menos sei de onde e porquê lhe vem aquele impulso idiota de achar que conhece os outros, de se permitir avaliá-los, criticá-los, julgá-los. Pois se nem a si próprio se conhece sequer!
Hoje em dia não se tem a humildade de se ter uma opinião. A opinião, que outrora era apenas um modo de ver pessoal, individual, e que servia para que, por meio da modéstia, da partilha e do verdadeiro saber ver e ouvir, da discussão sensata nascesse a luz, hoje, pela ignorância e pela soberba, sabe-se lá por que artes do demo, nasce já uma certeza com um séquito de néscios acometidos de indolência mental. E ei-los que acerrimamente defendem a idiotice que outro pensou. E em todo este processo, nem uma vez, alguém, questiona alguma coisa!
Enquanto a ignorância e a estupidez, a arrogância e a empáfia, a superficialidade e a idiotia proliferam e alastram, o discernimento, a verdadeira inteligência, vai-se tornando, pela sua escassez, um tesouro a preservar!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Aventar – Blogs do Ano 2011


O FaceDaLetra participou no Concurso e agradece todas as visitas recebidas!


Ao blogue Divina Comédia, os meus parabéns! A vitória foi mais que merecida! Na categoria de Auto-conhecimento / Reflexão Filosófica o Divina Comédia foi ímpar!
E se para alguma coisa vale a minha opinião, o blogue Ponteiros Parados, tão injustamente detido na primeira eliminatória, seria, a meu ver, um segundo lugar de eleição!
Ao Aventar, os meus parabéns pelo modo íntegro como organizou e dirigiu o evento desde o início e, sobretudo, pela estóica e paciente atitude demonstrada perante a idiotice, a estupidez e a mesquinhez dos mil e um comentários dos mil e um pobres de espírito!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O culto de "o mais"

(Flandrin, Hippolyt - Jeune Homme Nu Assis - Louvre)


Apanágio dos dias de hoje é o culto de “o mais”. O mais caro, o mais bonito, o mais rico, o mais moderno, o mais esperto. As vinte e quatro horas de cada dia da vida do devoto deste culto são dedicadas à adoração do efémero. Não há tempo para nada mais se se quiser ser o primeiro, o mais importante, o mais destacado, o mais famoso, o mais badalado. Preenchem-se então os dias com todo o tipo de idiotices, que vão desde o futebol à política e aos implantes mamários. Procura-se afincadamente “o mais” em tudo o que possa colmatar o ego de satisfação. Porque é esse o deus deste culto. Há que mantê-lo contente, saciado. Há que cobri-lo de oferendas, sempre diversas, sempre novas na sua transitória qualidade, não vá ele tomar-se da ira e desaparecer, deixando os devotos sem protecção. E isso sim, seria desastroso. 

Sem a parafernália que o culto exige, sem a inspiração para a criação de ideias e objectos inúteis que a egocêntrica divindade insufla nas mentes imbecilizadas dos devotos, sem as vestes que os obriga a usar, e sem o cenário irreal montado pela cegueira dos seguidores e consolidado pela divindade no seu ávido desejo de veneração, o devoto ficaria completamente nu. Ficaria exposto. Sentir-se-ia desamparado, completamente indefeso. Abandonado pelo deus do externo, despojado de todo e qualquer sustentáculo concreto, o devoto ver-se-ia reduzido ao último reduto material: o seu próprio corpo. 

Assim desapossado, ver-se-ia tão comum e tão similar a todos os outros desolados seguidores. Sem a sua pretensa singularidade, sem a sua inconsistente originalidade, haveria de chegar o medo. E o medo colar-se-lhe-ia à pele. 

Num mundo de completas ausências objectivas, por única companhia esse medo devastador da insignificância em que se tornara, frustrado pela colossal impotência que o assolava, o devoto voltar-se-ia para a única coisa que lhe restava: para si próprio. E dentro de si encontraria um surpreendente e desconhecido mundo de consciência que o traria de volta à humanidade.  

Mas isto é só e apenas um puro devaneio de quem está a escrever. Tal como são as coisas nos dias de hoje, o devoto do culto de “o mais” irá continuar, quiçá ad aeternum, nesta aberrante atrofia.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Os Quietos e os Irrequietos

A continuada constatação de que, efectivamente, os homens são ou quietos ou irrequietos, levou-me a sentir vontade de repetir uma publicação de 2010:




Aos homens divido-os em dois tipos: os quietos e os irrequietos.

Os primeiros, os quietos, que contraditoriamente são os que mais ruído fazem, são também os mais numerosos. São aqueles de quem se fala, aqueles que falam dos outros, aqueles que não falam porque têm que se lhes diga, aqueles que falam sempre e aqueles que por mais que falem ninguém os ouve.


Vivem prisioneiros do tempo e contam-no com a mesma ganância que contam o dinheiro. Que também é seu carcereiro. Perdem-se em emaranhados indestrinçáveis de desejos, caprichos e fantasias. Costumo observá-los de longe sem que me notem, e não consigo ver, nas suas actividades tontas e fúteis, um laivozito que seja de sensatez e seriedade. Prefiro as formigas. Além do senso comum que lhes é característico são mais ordeiras e nada barulhentas nem espalhafatosas.


Os homens quietos, os ruidosos, andam sempre curvados sob o peso do passado. Gastam a maior parte da sua energia a relembrar e a festejar, só que com muito mais frivolidade do que antes, os pretensos actos e feitos dos seus ancestrais. Misturam e valorizam por igual tradições, superstições e imaginações, distorcem factos e acontecimentos, e nem parecem importar-se com isso. Constroem, sem alicerces, belos castelos de areia e passam a vida a inventar meios e maneiras de serem o que não são.


Orgulham-se de tornar complexo aquilo que é simples. Por outro lado queixam-se da vida que, dizem eles, é feita de problemas e de dificuldades. Padronizaram os sentimentos e vendem-nos como se de mercadoria se tratasse. Com os pensamentos fizeram o mesmo. E com a inconsciência do ignorante e a sandice do imbecil, dão-se ares de importância e pretendem ostentar uma inteligência que nunca tiveram. Prefiro os macacos. Se alguma coisa padronizaram foi a cata de piolhos, mas pelo menos não se incomodam em parecer mais inteligentes do que o que são.


Os segundos, os irrequietos, são totalmente diferentes e por estranho que pareça são muito silenciosos. São poucos, muito poucos. Têm espíritos revoltos, naturalmente insatisfeitos, são inquisitivos e estão imbuídos de uma inquietação serena e pacífica que penetra afectuosa mas irremediavelmente o mais espesso dos véus da ignorância.


Interiormente turbulentos, movem-se nas areias movediças do pensamento. Exploram o interior humano com a mesma impassibilidade e domínio de um pescador em alto-mar num qualquer dia de tempestade.


De alma inflamada, em rodopios e turbilhões constantes, percorrendo caminhos desconhecidos que levam às profundezas dos infernos e às celestiais alturas do paraíso, os irrequietos permanecem serenos. Só assim podem prosseguir a busca em sendas pejadas de armadilhas e encruzilhadas.


Inebriados por uma liberdade irrefutavelmente plena que só o homem que duvida pode saborear, transportam-se para além das nuvens que ensombram o quotidiano e de mão dada com o que ninguém quer ver, tecem no silêncio e no infinito as próprias redes que sustentam a vida.


Os irrequietos, ao contrário dos quietos, precisam de muito pouco, não anseiam nada e jamais querem ser aquilo que não são.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Que me importa?




Sou uma pessoa ridícula. Agora chamam-me louco. Isso seria uma promoção se não fosse que permaneço tão ridículo a seus olhos como antes. Mas agora não guardo rancor por isso, todos eles me são queridos agora, mesmo quando se riem de mim – e, de facto, é precisamente nessa altura que me são particularmente queridos. Podia participar no seu riso – não exactamente rindo-me de mim, mas por afeição a eles, se não me sentisse tão triste quando olho para eles.
Fyodor Dostoevsky em O Sonho de Um Homem Ridículo





Importa-me o que pensam de mim? Importa-me que me achem isto, aquilo ou aqueloutro?

Afinal, sou tudo isso que eles pensam de mim. Sou-o, de facto, para eles. É assim que me vêem. E assim me julgam e assim se convencem que sou o que pensam que sou. Mas a mim, que me importa isso? Não me conheço pelas opiniões deles, conheço-me, sim, pelas que eu própria tenho de mim. Encontro muitos mais defeitos em mim, quando para mim olho, do que eles alguma vez serão capazes de me apontar. E até já se deu o caso de uma alminha me ter tecido um elogio que, sendo completamente imerecido, me abriu portas a uma amálgama de imperfeições que até aí não tinha notado na minha pessoa.
“Não vives neste mundo”, “construíste um mundo irreal”, “ninguém pensa assim” dizem-me tantas vezes. “Isso é absurdo, é rídiculo” insistem. Mas eu, louca e ridícula aos olhos deles, prefiro o meu absurdo à lógica cristalizada dos que assim me censuram. Envolve-me uma densa tristeza, não porque pensem isso de mim mas porque se encerram em definições e juízos, porque se confinam a pensamentos mortos, porque se limitam com uma cerca que nunca querem transpôr. Jamais sentirão o desafio de ser.
Há vida no meu absurdo e alegria na minha ridiculez. Há criação na minha loucura. Há nascimentos e mortes e trevas e luz. Há pensamentos vivos, constatações abismais e campos abertos a fugir de vista para explorar. Mudo de ideias quando quero e não preciso de ser coerente. Mudo com a vida, que ela é sempre diferente. Olho para as coisas sem filtros no olhar, como se fossem coisas novas, nunca vistas, acabadas de criar. E mato sentimentos quando quero porque os apanhei em flagrantes falsidades. Ou crio sentimentos novos e novas formas de olhar porque os apanho subitamente tão repletos de verdade.
O que para mim é, para eles não é. O que me mira e me desafia esconde-se do olhar deles. O que ouço no silêncio não o ouvem eles nem que ressoasse como trovão.
Que me importa o que pensam de mim? Todos somos únicos e eu, absurda, louca e ridícula, quero mesmo é ser como sou.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Contra o relógio

O tempo não é senão o ribeiro em que vou pescar.
Henry David Thoreau

Que facilmente se distrai o ser humano! Basta a perspectiva de um bailarico e de um foguetório, e ei-lo que se deixa embalar e seduzir como criança no berço a sugar na chupeta!

Natais, passagens de ano, páscoas, carnavais e todo o tipo de celebrações não são nada mais, nada menos, que panaceias inconscientemente desejadas para os males que afligem a alma humana. Por que razão haveríamos de festejar uma data, um ponto no tempo, se ele é conceito que nem sequer somos capazes de entender? E, ainda por cima, o conceito diverge: o calendário gregoriano é diferente do judeu, do islâmico, do maia. Razões superficiais, de base religiosa ou pagã, desejos carentes de realização, portanto, são o que levam o homem a festejos.
Se procurarmos algum sentido na celebração, que melhor exemplo poderá haver que o festejo solitário ou em privada companhia, de eventos que, íntimos, infímos, discretos e aparentemente de pouca monta, modificam a nossa vida e abrem alas à compreensão?
Enquanto escrevo, em pano de fundo a orquestra filarmónica de Viena, interpretando Strauss, embala-me no sonho de uma vida sem tempo. Uma vida que se vive momento a momento sem a mesquinha necessidade de a medir em segundos, minutos, horas, meses, anos, séculos. Abrange a vida toda a eternidade, pese embora disso não se tenha plena consciência.
Compartimentá-la em lapsos de tempo é tudo o que não quero. Não quero que me desejem boas festas. Não quero que me desejem feliz aniversário, nem bom natal, nem boa passagem de ano, como se a vida parasse nesses momentos para absurdos rituais e os comportamentos estereotipados sofressem estranhas e temporárias modificações. Quero, sim, que cada um tenha consciência do tempo próprio da sua vida. Que aproveite o minuto para pensar, a hora para reflectir, o ano para ler a  experiência, a década para aprender, o século para tocar, ao de leve que seja, a sabedoria. Quero que se não façam interregnos ocos e fúteis no fluxo contínuo da vida. Que se viva absorvendo cada milésimo de segundo. Quero que o tempo seja apenas o decurso natural da vida, uma sua qualidade que a não coarcta, que a não impede, que a não cristaliza, que a não dana.
A vida não pára quando se decide usá-la para a imbecilidade, para a futilidade. Não pára quando se emprega na acção contra-natura. Nem melhora tampouco. Porém, quando se esquece o tempo e se segue naturalmente o curso da vida, há um caminho intemporal que é infinitamente eterno.
Sou incondicionalmente contra o relógio!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um só

Toda a gente está alegre
como se desfrutando da maior festa,
ou dirigindo-se aos terraços na Primavera.
Só eu ando à deriva sem direcção,
como um bebé que ainda não sorriu.
Só eu ando triste como se não tivesse lar.
Toda a gente tem mais do que precisa,
só eu pareço ter necessidade.
Tenho a mente de um tolo, que confuso estou!
As outras pessoas são inteligentes e espertas,
só eu sou obscuro.
As outras pessoas são vivas e seguras de si,
só eu sou lento e confuso.
Sou inquieto como as ondas do mar,
como o vento agitado.
Toda a gente tem um objectivo,
só eu sou teimoso e incómodo.
Sou diferente das outras pessoas,
Mesmo assim, sou alimentado pelo Grande.

Lao Tzu
em Tao Te Ching - Verso 20


Quando se toma verdadeira consciência da vida, e isso pode acontecer num qualquer período temporão ou tardio, o caminho que então se depara é um só. E não é certamente nenhum dos traçados pela ordem estabelecida. Tampouco são os que advêm da tradição, mecanicamente trilhados desde tempos imemoriais. Não é nenhum dos que a modernidade inventa e muito menos algum nascido das sombras de esoterismos esquizofrénicos.
É um golpe fatal, essa tomada de consciência. Fere de alto a baixo, por dentro e por fora. Mata sem dó nem piedade crenças, convicções, ideais. Reduz a pó os periclitantes castelos de areia até aí tão bem urdidos. Expõe uma nova nudez que jamais envergonha ou precisa de ser coberta. O sentido das coisas perde o sentido e nasce um sentido novo que nada tem a ver com as coisas.
Os desassossegos, as inquietações, as provações já não são dor nem mágoa nem tristeza, são dádivas. A ofensa já não ofende, o juízo alheio já não perturba, a defesa da opinião própria já não interessa. Já não se desperdiça a palavra e todo o acto é ponderado.
E porque assim é, está-se só, é-se só, e o caminho a trilhar é um só: o caminho da solidão!
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