quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O culto de "o mais"

(Flandrin, Hippolyt - Jeune Homme Nu Assis - Louvre)


Apanágio dos dias de hoje é o culto de “o mais”. O mais caro, o mais bonito, o mais rico, o mais moderno, o mais esperto. As vinte e quatro horas de cada dia da vida do devoto deste culto são dedicadas à adoração do efémero. Não há tempo para nada mais se se quiser ser o primeiro, o mais importante, o mais destacado, o mais famoso, o mais badalado. Preenchem-se então os dias com todo o tipo de idiotices, que vão desde o futebol à política e aos implantes mamários. Procura-se afincadamente “o mais” em tudo o que possa colmatar o ego de satisfação. Porque é esse o deus deste culto. Há que mantê-lo contente, saciado. Há que cobri-lo de oferendas, sempre diversas, sempre novas na sua transitória qualidade, não vá ele tomar-se da ira e desaparecer, deixando os devotos sem protecção. E isso sim, seria desastroso. 

Sem a parafernália que o culto exige, sem a inspiração para a criação de ideias e objectos inúteis que a egocêntrica divindade insufla nas mentes imbecilizadas dos devotos, sem as vestes que os obriga a usar, e sem o cenário irreal montado pela cegueira dos seguidores e consolidado pela divindade no seu ávido desejo de veneração, o devoto ficaria completamente nu. Ficaria exposto. Sentir-se-ia desamparado, completamente indefeso. Abandonado pelo deus do externo, despojado de todo e qualquer sustentáculo concreto, o devoto ver-se-ia reduzido ao último reduto material: o seu próprio corpo. 

Assim desapossado, ver-se-ia tão comum e tão similar a todos os outros desolados seguidores. Sem a sua pretensa singularidade, sem a sua inconsistente originalidade, haveria de chegar o medo. E o medo colar-se-lhe-ia à pele. 

Num mundo de completas ausências objectivas, por única companhia esse medo devastador da insignificância em que se tornara, frustrado pela colossal impotência que o assolava, o devoto voltar-se-ia para a única coisa que lhe restava: para si próprio. E dentro de si encontraria um surpreendente e desconhecido mundo de consciência que o traria de volta à humanidade.  

Mas isto é só e apenas um puro devaneio de quem está a escrever. Tal como são as coisas nos dias de hoje, o devoto do culto de “o mais” irá continuar, quiçá ad aeternum, nesta aberrante atrofia.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Os Quietos e os Irrequietos

A continuada constatação de que, efectivamente, os homens são ou quietos ou irrequietos, levou-me a sentir vontade de repetir uma publicação de 2010:




Aos homens divido-os em dois tipos: os quietos e os irrequietos.

Os primeiros, os quietos, que contraditoriamente são os que mais ruído fazem, são também os mais numerosos. São aqueles de quem se fala, aqueles que falam dos outros, aqueles que não falam porque têm que se lhes diga, aqueles que falam sempre e aqueles que por mais que falem ninguém os ouve.


Vivem prisioneiros do tempo e contam-no com a mesma ganância que contam o dinheiro. Que também é seu carcereiro. Perdem-se em emaranhados indestrinçáveis de desejos, caprichos e fantasias. Costumo observá-los de longe sem que me notem, e não consigo ver, nas suas actividades tontas e fúteis, um laivozito que seja de sensatez e seriedade. Prefiro as formigas. Além do senso comum que lhes é característico são mais ordeiras e nada barulhentas nem espalhafatosas.


Os homens quietos, os ruidosos, andam sempre curvados sob o peso do passado. Gastam a maior parte da sua energia a relembrar e a festejar, só que com muito mais frivolidade do que antes, os pretensos actos e feitos dos seus ancestrais. Misturam e valorizam por igual tradições, superstições e imaginações, distorcem factos e acontecimentos, e nem parecem importar-se com isso. Constroem, sem alicerces, belos castelos de areia e passam a vida a inventar meios e maneiras de serem o que não são.


Orgulham-se de tornar complexo aquilo que é simples. Por outro lado queixam-se da vida que, dizem eles, é feita de problemas e de dificuldades. Padronizaram os sentimentos e vendem-nos como se de mercadoria se tratasse. Com os pensamentos fizeram o mesmo. E com a inconsciência do ignorante e a sandice do imbecil, dão-se ares de importância e pretendem ostentar uma inteligência que nunca tiveram. Prefiro os macacos. Se alguma coisa padronizaram foi a cata de piolhos, mas pelo menos não se incomodam em parecer mais inteligentes do que o que são.


Os segundos, os irrequietos, são totalmente diferentes e por estranho que pareça são muito silenciosos. São poucos, muito poucos. Têm espíritos revoltos, naturalmente insatisfeitos, são inquisitivos e estão imbuídos de uma inquietação serena e pacífica que penetra afectuosa mas irremediavelmente o mais espesso dos véus da ignorância.


Interiormente turbulentos, movem-se nas areias movediças do pensamento. Exploram o interior humano com a mesma impassibilidade e domínio de um pescador em alto-mar num qualquer dia de tempestade.


De alma inflamada, em rodopios e turbilhões constantes, percorrendo caminhos desconhecidos que levam às profundezas dos infernos e às celestiais alturas do paraíso, os irrequietos permanecem serenos. Só assim podem prosseguir a busca em sendas pejadas de armadilhas e encruzilhadas.


Inebriados por uma liberdade irrefutavelmente plena que só o homem que duvida pode saborear, transportam-se para além das nuvens que ensombram o quotidiano e de mão dada com o que ninguém quer ver, tecem no silêncio e no infinito as próprias redes que sustentam a vida.


Os irrequietos, ao contrário dos quietos, precisam de muito pouco, não anseiam nada e jamais querem ser aquilo que não são.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Que me importa?




Sou uma pessoa ridícula. Agora chamam-me louco. Isso seria uma promoção se não fosse que permaneço tão ridículo a seus olhos como antes. Mas agora não guardo rancor por isso, todos eles me são queridos agora, mesmo quando se riem de mim – e, de facto, é precisamente nessa altura que me são particularmente queridos. Podia participar no seu riso – não exactamente rindo-me de mim, mas por afeição a eles, se não me sentisse tão triste quando olho para eles.
Fyodor Dostoevsky em O Sonho de Um Homem Ridículo





Importa-me o que pensam de mim? Importa-me que me achem isto, aquilo ou aqueloutro?

Afinal, sou tudo isso que eles pensam de mim. Sou-o, de facto, para eles. É assim que me vêem. E assim me julgam e assim se convencem que sou o que pensam que sou. Mas a mim, que me importa isso? Não me conheço pelas opiniões deles, conheço-me, sim, pelas que eu própria tenho de mim. Encontro muitos mais defeitos em mim, quando para mim olho, do que eles alguma vez serão capazes de me apontar. E até já se deu o caso de uma alminha me ter tecido um elogio que, sendo completamente imerecido, me abriu portas a uma amálgama de imperfeições que até aí não tinha notado na minha pessoa.
“Não vives neste mundo”, “construíste um mundo irreal”, “ninguém pensa assim” dizem-me tantas vezes. “Isso é absurdo, é rídiculo” insistem. Mas eu, louca e ridícula aos olhos deles, prefiro o meu absurdo à lógica cristalizada dos que assim me censuram. Envolve-me uma densa tristeza, não porque pensem isso de mim mas porque se encerram em definições e juízos, porque se confinam a pensamentos mortos, porque se limitam com uma cerca que nunca querem transpôr. Jamais sentirão o desafio de ser.
Há vida no meu absurdo e alegria na minha ridiculez. Há criação na minha loucura. Há nascimentos e mortes e trevas e luz. Há pensamentos vivos, constatações abismais e campos abertos a fugir de vista para explorar. Mudo de ideias quando quero e não preciso de ser coerente. Mudo com a vida, que ela é sempre diferente. Olho para as coisas sem filtros no olhar, como se fossem coisas novas, nunca vistas, acabadas de criar. E mato sentimentos quando quero porque os apanhei em flagrantes falsidades. Ou crio sentimentos novos e novas formas de olhar porque os apanho subitamente tão repletos de verdade.
O que para mim é, para eles não é. O que me mira e me desafia esconde-se do olhar deles. O que ouço no silêncio não o ouvem eles nem que ressoasse como trovão.
Que me importa o que pensam de mim? Todos somos únicos e eu, absurda, louca e ridícula, quero mesmo é ser como sou.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Contra o relógio

O tempo não é senão o ribeiro em que vou pescar.
Henry David Thoreau

Que facilmente se distrai o ser humano! Basta a perspectiva de um bailarico e de um foguetório, e ei-lo que se deixa embalar e seduzir como criança no berço a sugar na chupeta!

Natais, passagens de ano, páscoas, carnavais e todo o tipo de celebrações não são nada mais, nada menos, que panaceias inconscientemente desejadas para os males que afligem a alma humana. Por que razão haveríamos de festejar uma data, um ponto no tempo, se ele é conceito que nem sequer somos capazes de entender? E, ainda por cima, o conceito diverge: o calendário gregoriano é diferente do judeu, do islâmico, do maia. Razões superficiais, de base religiosa ou pagã, desejos carentes de realização, portanto, são o que levam o homem a festejos.
Se procurarmos algum sentido na celebração, que melhor exemplo poderá haver que o festejo solitário ou em privada companhia, de eventos que, íntimos, infímos, discretos e aparentemente de pouca monta, modificam a nossa vida e abrem alas à compreensão?
Enquanto escrevo, em pano de fundo a orquestra filarmónica de Viena, interpretando Strauss, embala-me no sonho de uma vida sem tempo. Uma vida que se vive momento a momento sem a mesquinha necessidade de a medir em segundos, minutos, horas, meses, anos, séculos. Abrange a vida toda a eternidade, pese embora disso não se tenha plena consciência.
Compartimentá-la em lapsos de tempo é tudo o que não quero. Não quero que me desejem boas festas. Não quero que me desejem feliz aniversário, nem bom natal, nem boa passagem de ano, como se a vida parasse nesses momentos para absurdos rituais e os comportamentos estereotipados sofressem estranhas e temporárias modificações. Quero, sim, que cada um tenha consciência do tempo próprio da sua vida. Que aproveite o minuto para pensar, a hora para reflectir, o ano para ler a  experiência, a década para aprender, o século para tocar, ao de leve que seja, a sabedoria. Quero que se não façam interregnos ocos e fúteis no fluxo contínuo da vida. Que se viva absorvendo cada milésimo de segundo. Quero que o tempo seja apenas o decurso natural da vida, uma sua qualidade que a não coarcta, que a não impede, que a não cristaliza, que a não dana.
A vida não pára quando se decide usá-la para a imbecilidade, para a futilidade. Não pára quando se emprega na acção contra-natura. Nem melhora tampouco. Porém, quando se esquece o tempo e se segue naturalmente o curso da vida, há um caminho intemporal que é infinitamente eterno.
Sou incondicionalmente contra o relógio!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um só

Toda a gente está alegre
como se desfrutando da maior festa,
ou dirigindo-se aos terraços na Primavera.
Só eu ando à deriva sem direcção,
como um bebé que ainda não sorriu.
Só eu ando triste como se não tivesse lar.
Toda a gente tem mais do que precisa,
só eu pareço ter necessidade.
Tenho a mente de um tolo, que confuso estou!
As outras pessoas são inteligentes e espertas,
só eu sou obscuro.
As outras pessoas são vivas e seguras de si,
só eu sou lento e confuso.
Sou inquieto como as ondas do mar,
como o vento agitado.
Toda a gente tem um objectivo,
só eu sou teimoso e incómodo.
Sou diferente das outras pessoas,
Mesmo assim, sou alimentado pelo Grande.

Lao Tzu
em Tao Te Ching - Verso 20


Quando se toma verdadeira consciência da vida, e isso pode acontecer num qualquer período temporão ou tardio, o caminho que então se depara é um só. E não é certamente nenhum dos traçados pela ordem estabelecida. Tampouco são os que advêm da tradição, mecanicamente trilhados desde tempos imemoriais. Não é nenhum dos que a modernidade inventa e muito menos algum nascido das sombras de esoterismos esquizofrénicos.
É um golpe fatal, essa tomada de consciência. Fere de alto a baixo, por dentro e por fora. Mata sem dó nem piedade crenças, convicções, ideais. Reduz a pó os periclitantes castelos de areia até aí tão bem urdidos. Expõe uma nova nudez que jamais envergonha ou precisa de ser coberta. O sentido das coisas perde o sentido e nasce um sentido novo que nada tem a ver com as coisas.
Os desassossegos, as inquietações, as provações já não são dor nem mágoa nem tristeza, são dádivas. A ofensa já não ofende, o juízo alheio já não perturba, a defesa da opinião própria já não interessa. Já não se desperdiça a palavra e todo o acto é ponderado.
E porque assim é, está-se só, é-se só, e o caminho a trilhar é um só: o caminho da solidão!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Reservo-me o direito de...

Vive-se num néscio faz-de-conta. É notório, é inegável. Imagina-se uma vida assim ou assado, que nem sequer é fruto de uma imaginação livre e fecunda, mas de uma perspectiva condicionada e limitada por mão alheia, e depois é só sonhar dentro daquele círculo restrito e nos moldes que uma parvoeira colectiva vai ditando.
Daí até à deturpação do natural, até à perversão do mais inócuo e benigno senso comum, é um pequeno passo. De repente, no entusiasmo cego de se vir a ser “alguém” na vida, nada mais importa senão a casmurrice básica e grosseira de atingir um fim.
As armas são a cópia, a imitação, o seguir um caminho já trilhado com tolas pretensões de originalidade, e, o que é bem mais grave, o atropelo implacável e premeditado dos outros na corrida a uma ascensão que não é mais do que uma queda abismal no mais profundo dos infernos. O inferno da ilusão, onde se atribui importância ao não importante, onde se dá valor à inutilidade absoluta, onde se idolatra e cristaliza o inexistente.
O exemplo passou a ser um pau de dois bicos, e a tendência, crescente ao longo dos tempos, tem sido o uso e abuso do bico da esperteza astuta. O outro bico, o da sensatez, apanágio de uma muito pequena minoria, foi completamente ignorado, esquecido, ou não fosse esse o que mantém sob controlo o egocêntrico ego em favor do bem comum, e que, portanto, coarcta os fins individualistas em vista. O fortalecimento do ego, a sua veneração como se fosse o único veículo de sobrevivência, embrutece o juízo, impulsiona o culto da imagem e cobre com espessos mantos de ignorância a outra parte do ser que não é ego. E é assim que esta imbecilidade adquirida (não acredito que seja inata, apenas incutida por contágio) atinge e violenta, de uma forma estrepitosamente cruel, todos os sectores da vida humana.
Assim sendo, não há nada de novo para dizer, nem para fazer. Só poderá acontecer a exacerbação da decadência instalada. As conversas são por demais repetidas porque os temas são sempre os mesmos. As dissertações, os discursos, os sermões, todos radicam no mesmo velho padrão de estupidez inventado algures no tempo. A comunicação entre os seres não é mais que um papaguear obsoleto, e da discussão já não nasce a luz porque a oposição de ideias é mero fingimento que oculta interesses afinal comuns. As acções são velhas, insistente e obstinadamente vestidas à moda, e por isso, ridículas e ineficazes. Não há criação, originalidade. Perdeu-se o salutar hábito de ir à fonte buscar água fresca para saciar a sede. Banha-se pois a multidão no mesmo charco estagnado.
É por tudo isso que me reservo o direito de tapar os ouvidos, de fechar os olhos e de ficar inactiva, sempre que me apetecer.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Reflexo

Pensa-se que se é o que de si próprio se vê. Pensa-se que se é o nome que se tem. Ou a profissão que se tem. Ou a família que se tem. Ou a riqueza que se tem. Ou a pobreza. Pensa-se que se é o rosto, o corpo que se tem. Pensa-se que se é a imagem que de si próprio se vê reflectida no espelho.  

Pensa-se que se se mudar o que de si próprio se vê, se vai ser diferente. 

E pensa-se que o que se vê do outro é o que o outro é. 

Mas não é de todo assim. O reflexo da lua na água não é a lua. É a imagem dela. E uma imagem não tem qualidades, não tem essência, não tem profundidade. 

Portanto insisto nisto: que quando me olho no espelho, aquela que vejo reflectida não sou eu. Não sou, não senhor. Como poderia ser eu se aquela cara, aquela compleição, jamais me vêm à mente quando sinto, quando penso, quando olho, quando reflicto? Eu sou sem rosto, sem corpo. E a imagem que vejo reflectida no espelho é apenas a imagem que os outros têm de mim.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Borobudur

Gosto de pensar que a vida, no seu mais lato sentido, no seu todo, é como o templo de Borobudur!


Tido como um templo budista, Borobudur é, segundo a interpretação religiosa, um local de peregrinação, uma espécie de centro de formação para aqueles que querem atingir a iluminação.  

Ali, o peregrino inicia a sua longa e dura viagem no nível inferior. Percorrendo toda a sua extensão, vai tomando conhecimento das suas diversas características através dos factos relatados nos baixos-relevos com que se vai deparando. Não consegue ver os níveis superiores, nem sequer aquele que está imediatamente acima do seu. Nada há porém que o impeça, mediante o conhecimento que vai obtendo na caminhada, de os pressentir e de tentar até desenhá-los no seu pensamento, na sua imaginação. 

Chegado ao fim desse nível, o peregrino ascende então ao nível seguinte. Aí constata que não só continua a não poder ver os níveis seguintes, como também lhe é impossível ver o nível que acabou de deixar para trás. A viagem, aparentemente, é igual à anterior, situando-se as diferenças apenas na ampliação e refinamento do conhecimento e da consciência.  

Nível a nível, o peregrino vai fazendo o seu percurso ascendente. E sempre sem conseguir ver nem o superior nem o inferior. A sua consciência, constituída pela experiência obtida nos níveis inferiores, ao ser ampliada no nível seguinte é também depurada dos conteúdos supérfluos adquiridos no nível anterior.  

Uma vez chegado ao cimo, onde imponentes estupas contemplam, a partir de majestosa altitude, a natureza circundante, o peregrino terá atingido a iluminação após ter atravessado as três esferas da cosmologia budista representadas pelos diversos níveis: a do Desejo, a da Forma e a da Ausência de Forma. 

Na vida, e não me refiro aqui à sua acepção cronológica mas sim à sua qualidade intemporal e infinita, gosto de pensar que o homem passa por estádios idênticos. Num estádio inicial, digamos, colhe alguma experiência e adquire algum conhecimento, calcorreando caminhos árduos, procurando refúgio das agruras nos desejos e prazeres mundanos, totalmente afundado na massa grosseira e tosca da superficialidade e da materialidade. Assim atolado, não vê, tal como o peregrino em Borobudur, nenhum estádio superior. Mas pode, no seu íntimo, aperceber-se dele, vislumbrá-lo. 

É esse vislumbre que abre caminho para o estádio seguinte. Aí o homem sente a necessidade imperiosa de se libertar das paixões básicas, arrebatadas, que o cegam e que, contra a sua própria vontade, lhe ditam um rumo que já não quer tomar. Embora um pouco ainda como barco à deriva, e apoiando-se quase exclusivamente em estruturas materiais, ele luta já em resposta a um impulso interior que sente mas todavia não compreende. Pelo menos não totalmente. 

Esse impulso interior é a chave de acesso aos estádios seguintes. Apercebendo-se da enorme riqueza e profundidade do seu próprio ser, e começando a ter consciência de “o Todo em Tudo Sempre”, o homem liberta-se das amarras que o prendem à superficialidade, ao individualismo, ao mundo fenomenal.   

Consubstanciando-se, como éter no éter, do estupa no topo do topo, homem e divindade, feitos um, contemplam o eterno incomensurável.  

Gosto de pensar que assim é…

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Palha ou Sopa?

Se analisarmos, com profundidade e isenção, a aparente e estrepitosa barafunda económico-financeira a que nos habituaram a chamar “crise”, iremos por certo dar-nos conta das insidiosas maquinações que, nos bastidores, a fazem carburar, obviamente ao serviço e no soberano interesse dos seus criadores.  

Se não tomarmos cuidado, se não abrirmos bem os olhos – os da face e os da mente –, se não agirmos de moto próprio fazendo a destrinça sensata entre o que é essencial e o que é forjado, contrariamente às certezas de algumas mentes mentecaptas, a chamada crise não terminará, com toda a certeza, nem dentro de um ano nem nas próximas décadas. O que se manterá sim, incólume e com poder acrescido, será a monstruosa e ignóbil minoria regente e, por conseguinte, manter-se-ão também as crescentes dificuldades da maior parte da população mundial. 

Dizem que não há dinheiro, mas, no entanto, injectam-nos diariamente quantidades industriais de publicidade que, mais ou menos sub-repticiamente, incita ao consumismo. Não vemos, porém, nesse subtil incitamento, quaisquer referências a bens essenciais, pois não? E porquê? Porque é o supérfluo que alimenta a ganância dessa minoria asquerosa que rege o planeta. É essa minoria que dita as nossas pseudonecessidades! Todo o burro come palha, a questão é saber-lha dar! E é precisamente isto o que a maligna minoria no poder tem feito, faz e continuará a fazer. A menos que cada um faça a sua parte, claro está, e se recuse a comê-la. 

Enquanto muitas pessoas procuram já ajuda para as necessidades básicas da vida – comida, roupa e tecto – aquela repugnante minoria maquiavelicamente incute nas mentes fracas e sugestionáveis das massas um patamar de posses sem as quais, afirma, a vida não terá qualquer significado e será triste e miserável. Faz-lhes então acreditar que um determinado leque de bens é essencial à sobrevivência e à felicidade. E as massas acreditam.  

E tal como a rã, na água que gradualmente se vai aquecendo, não foge a uma morte certa devido à lenta adaptação a que é submetida, também as massas com algum poder aquisitivo não sentem a influência progressiva, e portanto a necessidade de saltar para fora desse lucrativo e macabro esquema, e também elas morrem – com os neurónios cozidos – para um discernimento sensato das intenções daquela maléfica minoria. Num ímpeto natural de imitação, de comparação e de competição, o indivíduo assim padronizado, consome sofregamente, e sem prévia reflexão, o que lhe é posto à frente dos olhos, com o objectivo de ser feliz, e de, sobretudo, ser igual ou melhor do que o seu parceiro do lado. Convém, evidentemente, à abominável minoria que se mantenha um elevado grau de ignorância. Corrobora essa conveniência a crescente involução dos processos educativos. 

E a um nível bem mais lamentável, o indivíduo pobre, aquele que realmente tem de lutar pela sobrevivência – e que constitui a grande maioria da população do planeta – tem a mente já per si programada, direccionada, única e exclusivamente, para a preservação da própria vida. Uma mente com preocupações a este nível não tem espaço para outras cogitações. Uma mente assim não questiona, não raciocina, não discerne e portanto, não riposta, não se opõe, não luta (eis a razão primordial pela qual não convém acabar com a fome no mundo!). E assim não perturba as bárbaras manobras de formatação levadas a cabo pela odiosa minoria. 

Eu não como palha. Gosto de me sentir livre. Por isso bastam-me uma sopa e uma mente desperta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Silêncio e Solidão

Chegados os dias cinzentos e o desconforto de uma ventania ou chuvada assoma-se à alma um sentimento de melancolia e nasce uma tendência natural para o recolhimento. Não que não aconteça durante o resto do ano. Mas agora, com os frios e as neblinas e a vasta paleta da natureza quase reduzida a tons pardos, o convite ao recolhimento é mais apelativo e a inclinação bem mais profunda. 

Em pousio é como quero ficar. Quase em estado letárgico para quem me vê por fora e serenamente activa para quem me vê por dentro. Na solidão e no silêncio do meu ser quero descansar. E explorar, descobrir o novo.  

É que tudo muda. Tudo menos o lavrar do homem. Lavrou outrora assim, e qual jumento embezerrado, jamais experimentou lavrar assado. Lavrou sempre a mesma terra, cansando-a. Lavrou sempre da mesma maneira, ainda que mudasse o aspecto das alfaias. Colheu sempre o mesmo, porque semeou sempre o mesmo. Mudaram os tempos, as épocas. Passaram os anos, os séculos. E o homem a lavrar e a colher sempre da mesma maneira. Jamais permaneceu em pousio, nem a terra lavrada pelo homem, nem o homem lavrado pela terra. 

Porque não fica em pousio é que o homem é tonta e frivolamente activo por fora. Cruel e violentamente activo por fora. E por dentro, desoladamente hibernante, inconscientemente ignorante. Tristemente cego e surdo para uma eventual primavera que o possa despertar. 

E enquanto o homem persiste no contínuo e desenfreado aperfeiçoar das alfaias, no ridículo manter na moda das albardas e no obtuso impedir do descanso da terra, eu busco, no inverno, no terreno fértil da solidão e do silêncio, sementes novas que hei-de deitar à terra. Sementes que, na primavera,  germinarão na mudança que eu própria gerei, serenamente activa por dentro, quase letárgica por fora.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Presunção e água benta...

A autoridade, o poder, a prepotência, a vaidade, e outros conceitos afins, só têm valor na razão directa da importância que se lhes dá. Não se lhes dê nenhuma, e em breve serão conceitos perdidos na bruma dos tempos! 

O grande problema reside no facto de a maior parte das pessoas sentir, consciente ou inconscientemente, a necessidade de se vergar perante outras que crê melhores, superiores a si. Não existe ilusão maior! Experimentem não curvar-se perante os ares de importância de que alguns se tomam, e verão como se lhes desenfuna o ego, como desincham tão estabalhoada e deselegantemente qual balão furado! 

Se existem poderosos, fomos nós que lhes outorgámos o poder. Se existem vaidosos, fomos nós que lhes alimentámos a vaidade. Se existem a autoridade e o comando e a prepotência, fomos nós que os acatámos.

Só a atitude individual, sensata e ponderada, poderá gerar a mudança global. Em vez de fazer vénias, deixando perigosamente desprotegida uma determinada parte do corpo, ergamos o queixo e olhemos em frente, sem a mais mínima tentação sequer de desviar o olhar! Assim fazendo, surpreendidos veremos como ruem por terra os ímpetos de superioridade, os arranques de prepotência, os ataques de ditadura, as crises de autoridade e os arrotos de poder!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Nascimento e Morte – Uma Mesma Natureza?

“Sendo certo que tudo está no Todo,
não é menos certo que o Todo está em todas as coisas.”

O Kybalion


A morte sempre suscitou curiosidade e sempre se tem tentado indagar sobre ela. Têm-se forjado ao longo dos tempos todos os géneros de teorias. Meras especulações contudo. Dela ninguém jamais regressou para dar conta da sua existência e natureza. 

Consigo entender, até certo ponto, que ela cause curiosidade, temor. Depois de vivida uma vida, não importa durante quanto tempo, surgirá sempre uma apoquentação, mais ou menos intensa, advinda do (quase) natural sentido de posse do ser humano. A perspectiva de se deixar para trás aqueles e aquilo que, toda a vida, se trataram como uma posse – não importa se material, se afectiva –, que possivelmente se chegaram até a confundir com o próprio eu, pinta de crueldade e medo qualquer imagem que se possa construir da morte e do estado pós-morte. Tenho para mim que são estes – o sentido de posse e por conseguinte o sentido de perda – os factores cruciais e motrizes para a busca ad eternum de uma explicação, conveniente diga-se de passagem, para a morte. 

Mas o verdadeiro busílis da questão colocada em título reside no seguinte: porque é que o nascimento não suscita a mesma curiosidade? Será que também aqui são determinantes os factores de sentido de posse e de perda? Porque afinal, quando se nasce, nasce-se sem nada.  

Questionei sobre o assunto várias pessoas. As respostas obtidas parecem ir no sentido de que o nascimento não importa – é indiferente de onde se provém, a partir do que é que se nasce – mas importa, e muito, a morte. Surpreendentemente, ou não, não obtive respostas firmes quanto à razão de assim se pensar. Leva-me tal a deduzir que estas questões não foram nunca antes ponderadas, e a concluir que, para os meus entrevistados, o rótulo de avis rara me assentaria que nem luva.  

De que me rotulariam então, se eu lhes dissesse que nascimento e morte são da mesma natureza? Que a diferença que aparentemente os distingue só existe se para eles se olhar através do véu do apego? Se eu lhes dissesse que o que são ao nascer é o que são ao morrer? Que a única diferença, intangível e imensurável, reside no aumento progressivo da consciência durante o tempo que permeia o nascer e o morrer? E que essa mesma consciência poderá ser o tecido primordial do universo? 

Se nasci para esta existência, morri para algo anterior. Se morri para esta existência, nasci para algo posterior. Trata-se apenas de um processo, um continuum espaço-tempo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Nevoeiro

O dia foi como quase todos os outros. Enfrentar a estupidez, o fingimento. Responder com a deixa mais adequada ao papel que cada um gosta de representar. Engolir sapos também faz parte. E fazer de conta que não se entende a intenção também. E por tudo isto, o esforço da minha própria representação.

Como gostaria de poder gritar que não faço parte de tudo isto. Que a minha vida não passa por aqui. Que ainda que me vejam como mais uma pessoa apenas, eu não sou essa imagem que de mim têm.
Fez sol. Choveu. Voltou a fazer sol e a chover. Abateu-se a noite e com ela as interrogações, as dúvidas. Chegou, como chega todos os dias, todas as noites, a inquietação. Um desassossego sem fim. Um sem-sentido que há que disfarçar com a dolorosa  atitude do politicamente correcto.
Com o sol que desponta parece haver uma esperança. Com a chuva que cai, ora forte, ora dengosa, um estremecimento da alma que não encontra paz. Com o azul do céu, uma possibilidade. Com o cinzento de que por vezes se veste, uma angústia que parece duradoura.
Já noite dentro, adensou-se um súbito nevoeiro. Desaparecerá com a aurora.
E o nevoeiro que preenche o meu ser, alguma vez se dissipará? 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Desolação

Porque será que a maioria das pessoas se ri das coisas sérias e leva a sério as brincadeiras?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Riscos Superficiais

Acredito que nasci livre. Depois prenderam-me. E fizeram-me muitos riscos. Prenderam-me a convenções, a regras estúpidas, a tradições e a crenças inverosímeis. Prenderam-me a um país e fizeram-me muitos riscos. Riscos de patriotismo, de nacionalidade, de defesa acérrima de uma realidade que só o era para uma minoria. Obrigaram-me a distinguir entre nós e os outros. Ainda que me obrigassem a estudar o mapa-múndi, queriam forçar-me a esquecer o resto do mundo.

Riscaram-me a alma e o coração com riscos algo profundos quando me forçaram a ajoelhar perante um deus. E eu não sabia o que era. E prenderam-me as asas quando me disseram que não podia passar os limites. Que esse deus castigava. Que arderia nas chamas do inferno. E eu também não sabia o que era o inferno.
Riscaram-me o cérebro garantindo que a história do homem era a que me contavam. Que os feitos e as glórias passadas eram uma herança que eu tinha de carregar. Tentaram aprofundar esses riscos quando me quiseram educar. Quiseram riscar-me com heróis de guerras estúpidas e de conquistas cruéis. Tentaram riscar-me com valores inconsistentes, com teorias insustentáveis, com sistemas e leis facciosos. Quiseram riscar-me de tal modo que tivesse por verdadeira a mentira.
A maior parte dos riscos resvalaram nas verdades que a minha alma firmemente albergava. Outros atingiram-me tenuemente já que não penetravam na espessa couraça do meu sentir. Outros ainda, descartei-os eu esquivando-me deles porque achei que não me assentariam. Ficaram apenas uns poucos, quiçá porque abriram sulcos mais profundos. Poli-os cuidadosamente. O tempo ajudou a disfarçá-los e hoje mal se notam.
É uma questão de estarmos atentos. Podemos passar pela vida com apenas alguns riscos superficiais. E além disso podemos sempre poli-los, minimizá-los. Podemos até encontrar-lhes uma utilidade. Ou podemos simplesmente aceitar a sua existência de uma forma tal que não coarctem no mais mínimo a nossa liberdade.
É assim que temos de passar pela vida. Incólumes e intocados na nossa essência, ainda que algo riscados superficialmente...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Grande Incómodo

O autoconhecimento é o começo da sabedoria,
em cuja tranquilidade e silêncio está o  incomensurável.

J. Krishnamurti 
em Comentários sobre o Viver – 1ª série


 
Todos os dias me deparo com pessoas que se sentem incomodadas.  

No café, logo pela manhã, já se ouvem resmungos e reclamações. No trânsito, o rádio do carro propaga mais incómodos. O custo de vida, o mau tempo e as queixas dos agricultores, as convulsões sociais por esse mundo fora. O futebol, os eventos culturais, as modas e as vidas alheias. À hora de almoço, enquanto se engolem à pressa alguns alimentos processados e de fraca nutrição, disparam-se comentários em todas as direcções, partilha-se o desagrado acerca disto e daquilo. Tudo incomoda. A atitude do colega, o discurso do político, a má-criação do vizinho, o trânsito, a fila, a coscuvilheira do prédio que espalha boatos, o treinador que não sabe o que faz, o mau desempenho do jogador. Tudo incomoda. O excesso de calor, a chuva que não pára, o fim-de-semana estragado, a praia que não se aproveitou. Tudo incomoda toda a gente. Ou quase toda. 

Mas nem de ano a ano me deparo com alguém que sinta o grande incómodo. 

O verdadeiro incómodo. Aquela inquietação penetrante e profunda que nos deixa à deriva num aparente sem sentido. Aquele mal-estar importuno e mordaz que seca a garganta, produz calafrios angustiantes e nos força a pensar na velha e recorrente questão do “Quem sou eu?”. Pergunta molesta. Perturbante. Insistente. Instigante. 

O grande incómodo é feito de interrogações, de questionamentos que tantas vezes ficam em suspenso por falta de respostas. Na sua natureza pululam silêncios e espaços incomensuráveis e desconhecidos. E vazios insuportáveis que, que a jeito de buraco negro, parecem sugar-nos toda a energia. Uma vez sentido, o grande incómodo jamais desaparecerá. Poderá diminuir de intensidade, ficar em estado cataléptico, permanecer em letárgica hibernação, mas jamais desaparecerá.  

Ao contrário daqueles que se incomodam por tudo e por nada no quotidiano transitório, aquele que sente o grande incómodo tende a entregar-se ao silêncio e à reflexão. Abandona o espalhafato e a atitude instável do incomodado leviano e inconsequente. Começa a distinguir, com um discernimento antes insuspeitado, o valor intrínseco das coisas. Aparta o trigo do joio e dá a cada um apenas e simplesmente a importância que lhe cabe. Não agiganta nem subestima, não exalta nem humilha. Permanece flexível porém firme e equilibrado, mesmo quando o grande incómodo o obriga a mergulhar em profundezas insondáveis. Não dá ouvidos ao ruído exterior mas escuta atentamente os murmúrios quase inaudíveis do seu interior.  

O grande incómodo por vezes dói. Dói deveras. Sem dor localizada, dói por toda a parte. Dói no coração, dói na alma, dói dentro e dói fora, dói na estrela, na galáxia, no universo inteiro. E outras vezes alegra. Alegra sem razão. Concede uma alegria imensa, quase extática, vinda do nada, cheia de tudo. Uma alegria que revela horizontes inusitados de infinitas possibilidades. 

Os pequenos incómodos, que indignam, que excitam, que estimulam acções e alvoroços, conduzem a becos sem saída, a círculos viciosos, a repetições entorpecentes.  

O grande incómodo, que incendeia sem queimar, que inquieta sem agitar, que estimula a inacção, a ponderação, o autoconhecimento, conduz ao desconhecido ilimitado, ao que é verdadeiramente novo, à suprema liberdade.  

domingo, 23 de outubro de 2011

Por que lutamos afinal?

A bem da verdade, lutamos pela justiça em geral ou pelo nosso próprio bem-estar?

O certo é que passamos a vida indignados com as atrocidades e as misérias e as injustiças que acontecem por esse mundo fora. Revoltamo-nos contra a corrupção, o poderio económico, as desavenças políticas ou religiosas, do nosso e de países que nem sequer conhecemos. Emitimos opiniões peremptórias sobre governos, políticos e mafias. Condenamos terrorismos e guerras e regimes. Fazemos juízos dos outros. Rotulamo-los de forma implacável. Achamo-nos detentores da razão, acreditamos firmemente estar pautados por inquestionáveis princípios de honra.
Contudo, a sociedade, a civilização, é tão só o reflexo das nossas atitudes, da nossa superficialidade, da nossa perigosa imaturidade, da nossa nociva forma de existir.
Passaram-se milénios de civilização. Já deveríamos ter aprendido algo. Já deveriamos ter ultrapassado os nossos instintos básicos, violentos e egoístas. Já deveríamos ter abandonado a visão redutora e abraçado a visão abrangente. Mas não. Continuamos exactamente na mesma. Revoltamo-nos, indignamo-nos, opinamos, julgamos e condenamos.  Mas fazemo-lo sempre em relação aos outros. Sempre em relação ao que nos é exterior. E quanto a nós próprios, como indivíduos? Julgamo-nos e condenamo-nos a nós próprios? Emitimos opiniões sobre as nossas próprias acções?
Não. Não o fazemos. Porque achamos que estamos cobertos de razão. Porque achamos que somos melhores que os outros. Porque achamos que temos pleno direito à nossa vidinha fútil. Porque achamos que temos direito ao nosso telemóvel e ao nosso computador de última geração, ao nosso automóvel topo de gama e ao nosso GPS, à nossa casa atafulhada de confortos e às mil e uma utilidades inúteis de que fazemos questão de rodear o nosso dia-a-dia. Porque achamos que temos direito a jantar fora, a degustar pratos gourmet regados com a colheita X ou Y nos restaurantes em voga, a exibirmo-nos com roupas e adereços com a marca dos estilistas do momento. Porque achamos que temos direito a férias de sonho,  de preferência nos destinos frequentados pelos políticos e pelos Vip’s ,e a empregos que nos inflam o ego, nos inundam de prestígio, o que quer isso seja, e a sentirmo-nos invejados.  Porque achamos que temos direito a empanturrar-nos de cerveja ou afins e a sentarmo-nos em frente ao plasma a ver jogos de futebol em HD. Porque achamos que temos direito a ter o que o outro tem, a ser o que o outro é.
Tentamos saber tudo das vidas ditas glamorosas, sofisticadas, famosas, públicas. Essas interessam-nos, nem que seja para criticar. Tentamos esquecer, contudo, e a todo o custo, as histórias tristes, as vidas miseráveis que nos rodeiam. Afastamo-nos delas porque nos ensombrecem os sonhos megalómanos. Só vemos o que queremos ver. E esta atitude dita o rumo que o mundo leva.
Vivemos num faz-de-conta que mete dó. Somos marionetas escravizadas pelos nossos próprios desejos, manipuladas por aqueles que muito intima e secretamente admiramos e imitamos.
Porque reclamamos agora? Porque nos indignamos e nos revoltamos agora? Muito simplesmente porque vemos goradas as possibilidades de continuar a alimentar as nossas manias de grandeza. Fluísse o dinheiro como em outras ocasiões, e estaríamos bem caladinhos mesmo que soubéssemos que outros metiam a mão onde não deviam, que usufruiam de direitos que não deveriam ter, que desviavam fundos em proveito próprio, que prejudicavam os necessitados em favor dos já abastados, que chacinavam inocentes em nome de um deus ou de um poderio.
Metamos a mão na consciência e ponderemos sobre a fonte da nossa indignação. Se a situação, quer no país, quer no mundo, está como está, a nós se deve. Somos culpados, cada um de nós. E o facto de sacudirmos a água do capote, de atirarmos as culpas a outros, apenas demonstra a nossa imensa estupidez.
É muito bom que nos revoltemos, sim, mas contra nós próprios. Fomos nós que ditámos as regras do jogo. Fomos nós, com a nossa ânsia de poder, com a nossa ambição e egoísmo desmesurados, que criámos a situação actual.
Queremos mudança? Então comecemos nós por mudar. Porque a mudança só pode dar-se em nós próprios, em cada um de nós. Só a mudança individual poderá provocar a mudança global.
Mudemos pois, lutemos pois, mas façamo-lo de dentro para fora!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A FIB em lugar do PIB


“Deveríamos começar a medir a felicidade das pessoas” começou ele, “tal como faz o Butão”. “Em vez do PIB, eles usam o GNH, Gross National Hapiness”. É típico do meu irmão surpreender-me assim. Frases curtas, incisivas, insusceptíveis de criar dúvidas quanto à sua factualidade. Sempre pronunciadas com o mesmo tom de voz sereno e sério com que diria um “Até amanhã. Se precisares de alguma coisa diz”. Costumam despertar em mim um desejo imenso de descoberta que logo tento aplacar com pesquisa e investigação. No silêncio das pesquisas a que constantemente me incita, jamais deixo de pensar que esse trio de virtudes que o caracteriza - falar pouco, pensar muito e instruir-se no que é verdadeiramente nuclear - é uma requintada arte que poucos conseguem dominar. 

Felicidade Interna Bruta… O conceito, a priori, parece desfasado da realidade. Parece adentrar-se no mais difícil dos reinos do ser humano, o imaterial. Também faz disparar os neurotransmissores, mas sobretudo despoleta sentimentos e emoções, e estimula, inegavelmente, a corrida ao armário dos desejos e à arca dos caprichos.

Se se não fizer a devida destrinça entre a felicidade com motivo e a felicidade sem motivo, entre a felicidade tangível e a intangível, entre a que carece de objecto para poder existir e aquela que existe independentemente de qualquer objecto, então passar-se-á a vida inteira numa triste e vã caça aos gambozinos. Mas se houver discernimento, se existir um equilíbrio, que só pode ser iniciado dentro para fora, do pensamento para a acção, então a felicidade, como medida, como indicador, será também a fonte inesgotável de onde brotarão progresso, evolução, desenvolvimento, criatividade. Das suas águas virá a mudança qualitativa que colocará o ser humano de regresso à via do correcto amadurecimento da humanidade.  

E mais. A felicidade não pode ser apenas um atributo das massas. A massa é cega, é bruta, tem comportamento encarneirado. Não, a felicidade tem de ser sentida por cada um, individualmente, com os matizes próprios e únicos de cada ser. E só assim será colectiva. 

Parece-me ser o Butão, dos cento e muitos países do mundo, o único em que impera o bom senso e o equilíbrio (GNH). A felicidade não é aquele expoente máximo de satisfação que se obtém com audis, gajos(as), spas e charutos. É antes um estado contínuo, sem picos resultantes de estimulação pontual exterior. Um estado criativo e inócuo, o único ventre capaz de gerar uma sociedade íntegra.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mentalidades

Fiquei abismada. Deitei os olhos a um blog que acolhe desabafos e indignações de quem segue a política. De quem a segue passo a passo, minuto a minuto, como se a vida sem ela fosse obra incompleta. Não consegui conter o espanto. Ao ler os comentários li mais palavrões do que palavras comuns. Li mais ignorância e mediocridade do que verdadeira e legítima inquietação. Li coisas sem nexo, li erros de ortografia, frases mal construídas. Li mentalidades toscas, brutas. Li frases papagueadas, chavões por demais ouvidos, queixas repetidas dos que se deixam levar pela corrente, imóveis, sem um único bracejar. 

Como se educa um povo? Ou melhor, será que se quer educar o povo? Por muito que a tente afastar, a imagem que deste povo logo me vem à mente é a de neandertais. Seguram ossos cuja carne em volta deglutem selvaticamente, e riem histéricos de outros, meros objectos de diversão, que se peleiam e retalham espichando o mesmo sangue que os incita. 

Nada se pode fazer. Não enquanto existirem neandertais. Enquanto a mentalidade for sanguinária, violenta, nacionalista e básica. Não enquanto o enriquecimento cultural for feito por meio de jogos de futebol, novelas, casas dos segredos e pesos pesados, literatura de cordel e revistas cor-de-rosa. Enquanto tudo isto existir, nada vai mudar. Continuarão a fluir os palavrões. A ignorância propagar-se-á como erva daninha. Seguir-se-á o “Esfola” logo que alguém diga “Mata!”. O político que guiará este povo será o político que este povo merece. Será o político que dará ao povo o que o povo quer. O líder não é diferente do seguidor, e é por isso que o seguidor escolhe precisamente determinado líder. 

Fico triste. Estou quase a desistir. Desistir de me fazer entender. Desistir de apresentar outros caminhos, outras possibilidades. Desistir de conversar para que se faça luz. Estou quase.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Andando aos "sssss"

Eles discursam, nós ficamos hipnotizados 
      Eles prometem, nós acreditamos 
          Eles gastam, nós pagamos 
              Eles decidem, nós aquiescemos 
                  Eles mandam, nós obedecemos 
                      Eles enganam-nos, nós acreditamos 
                  Eles justificam-se, nós admitimos 
              Eles tocam, nós dançamos 
          Eles exploram-nos, nós deixamos 
      Eles manipulam-nos, nós nem percebemos 
  Eles usam-nos, nós não nos importamos 
      Eles exigem, nós entregamos 
          Eles vivem, nós sobrevivemos 
              Eles candidatam-se, nós votamos 
                  Eles explicam, nós confiamos 
                      Eles pedem poder, nós damos-lho 
                  Eles clamam por autoridade, nós concedemos-lha 
              Eles dizem que é para norte, nós tomamos esse rumo 
          Eles dizem que agora é para sul, nós para lá nos encaminhamos 
      Eles dizem que a tendência é oeste, nós lá vamos nessa direcção 
  Eles dizem que é justo, nós engolimos 
      Eles mandam que paguemos, nós pagamos 
          Eles incrementam a nossa ignorância, nós veneramo-los por isso 
              Eles tratam-nos como crianças de 5 anos, nós chuchamos no dedo 
                  Eles contam mentiras, nós consideramo-las verdades 
                      Eles ditam as regras, nós seguimo-las 
                  Eles impõem o sistema, nós consolidamo-lo 
              Eles governam e governam-se, nós estamos sempre desgovernados 
          Eles corrompem e corrompem-se, nós sabemo-lo e ficamos calados 
      Eles são astutos e malabaristas, nós somos tansos e imbecis 
  Eles são espertos e audazes, nós somos burros e covardes 
      Eles são desavergonhados e hipócritas, nós somos tímidos e débeis 
          Eles não têm escrúpulos, nós temos demasiados

Quando é que vais parar de andar aos “ssss” e começar a pensar por ti próprio?

Confissões de uma burra

Nem sequer sou loura e muito menos barbie, mas devo ser muito, muito, muito burra. É que, por muito que me esforce, há coisas que não me entram, não lhes vejo nexo, não as compreendo.  

A verdade é que ninguém fala dessas coisas, aparentemente ninguém as questiona e vão, portanto, sendo tomadas por certas entrando no nosso dia-a-dia quase sem darmos por isso. Mas o pior é que eu, além de muito burra, sou obstinada que nem uma mula e tenho uma vontade férrea de compreender. Prefiro marrar inflexivelmente até que se faça luz no intuito, quiçá vão, de não morrer tão burra. Não descanso, portanto, até que o meu cérebro se acalme com uma explicação lógica, espontânea e naturalmente advinda de uma ponderada reflexão sobre a razão de ser das coisas.   

É claro que tudo isto, embora seja muito fácil de dizer, para uma burra como eu constitui tarefa titânica. E ainda por cima, se fosse só uma coisa que eu não compreendesse, ainda vá que não vá, mas são muitas, são mais que as mães, são praticamente infindas. E, como além de burra sou distraída, parece que, a cada pedra em que tropeço no meu ameno e jumentil percurso quotidiano, surge uma coisa nova e incompreensível. 

Outra agravante lhes acrescento: é que quanto mais mexo nas coisas, na tentativa quase desesperada de lhes encontrar, à luz do meu burrical cérebro, um só sentidozinho que seja, mais elas começam a feder, mais peçonhentas se tornam, e mais se emaranham com outras que, até aí, não haviam todavia espicaçado a minha asnática curiosidade. 

Para que melhor entendam as dificuldades de alcance da minha parca inteligência, vou dar-lhes alguns exemplos. 

“Este orçamento de estado”, dizia o outro, “viola promessas eleitorais”. Ora eu, que sou muito burra, pergunto “Mas e então as promessas eleitorais são para se cumprir? Eu julgava que as promessas não passavam disso mesmo, meras promessas sem concretização em vista. Para os políticos as promessas não têm prazo de validade, pois não?” 

Ouvi dizer que uma grande percentagem dos portugueses sofre de perturbações mentais, figuras relevantes e importantes desta naçãozita nela incluídas. Até aqui nada de novo. Até eu, que sou muito burra me apercebo disso. Agora, o que me preocupa – e o que seria, sim, digno de nota e de menção nos meios de comunicação – é o facto de que ninguém parece importar-se com as perturbações motoras que afectam a grande maioria da classe política. Coitados, é que nem capazes são de conduzir um automóvel! Deve ser bem frustrante ter de depender de terceiros, neste caso de motoristas, para se deslocarem de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Sim, porque a política é um trabalho, como muitos outros mas que requer mais responsabilidade, não é? Ou estou outra vez a ser muito, muito burra? 

Anunciaram um aumento no IVA da electricidade. Por acaso recebi hoje mesmo a minha conta da luz. E lá está ele, o aumento, bem aplicado aos consumos a partir do primeiro dia do mês. Mas depois, um olhar mais atento descobre que a taxa de exploração – a taxa que substitui o antiquado aluguer do contador – também se pode ver acrescida daquele mesmo aumento. E eu, que sou burra que até dói, pergunto com ar francamente espantado “Olha lá, mas a taxa de exploração também se consome? Eu pensava que essa taxa era fixa por muitos e longos anos, tantos que se fizermos as contas podíamos oferecer contadores, digo taxas de exploração, a todos os indivíduos da comunidade!” 

Ah, é verdade, na conta da água chamam outra coisa ao contador, chamam-lhe componente fixa! Quem me dera não ser tão burra e ter sido dotada à nascença de semelhante imaginação e inteligência! 

Outra coisa que também não percebo é a contribuição audiovisual. Sim, já sei que sou burra e que qualquer jumento comparado comigo é um doutor, mas raciocinem comigo: eu, vivendo num país democrático, escolho uma operadora de audiovisuais e faço com ela um contrato para o serviço que melhor se adapta às minhas preferências. Ora, se realmente vivo num país democrático, as minhas escolhas são soberanas e inalienáveis. Então, assim sendo, porque é que, como se de um acto de ditadura se tratasse, me obrigam a pagar outra operadora, que não escolhi e que ainda por cima oferece serviços de informação adulterada, entretenimento demagógico e (des)cultura manipulada?  Pois, pois, eu sei que sou burra, mas na verdade não consigo perceber! 

E a taxa de ocupação do subsolo, que as câmaras municipais aplicam na conta do gás? Isto então é que me mói o juízo. É um verdadeiro desafio à minha estupidez e dá asas ao meu asnear. É que eu pensava que a terra que piso e aquela que lhe está mais abaixo fizesse parte do meu legado natural por ter nascido na Terra e do meu legado biológico que me imprimiu marca de mamífero e me pôs a andar a duas, não me dotando pois nem de dentes de toupeira para esquadrinhar o subsolo nem de asinhas para não tocar na terra. 

Jamais se me ocorreu que a evolução técnica, usando a terra como meio infra-estrutural, fosse passível de taxação individual. Mas é claro que, como sou muito, muito burra, pensar que se trata de uma astuta e subtil forma de extorsão é com certeza um atentado à boa-fé e à moralidade dos municípios. 

Não posso, no entanto, nestas minhas asininas deambulações, deixar de pensar que a ocupação do espaço aéreo – segundo os municípios, é o espaço que fica por cima da cabeça dos transeuntes e dos passeios que eles usam – também é taxada! Se não acreditam perguntem aos proprietários de cafés que queiram ter um tolde de abrir e fechar… E na minha tosca burrice, não consigo parar de pensar que um dia qualquer irão fazer-me pagar pela ocupação espacial do meu volume corporal. 

Que pena tenho de ser tão burra. Se tivesse ao menos a inteligência da maioria das pessoas podia ser que conseguisse compreender. Mas como não tenho, nada mais me resta do que chafurdar nesta excrementícia porcaria e tentar vislumbrar-lhe algo de positivo!
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