segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Reflexão IV

Quando olhamos à nossa volta, tudo o que vemos passa pelo crivo do nosso condicionamento! E mesmo que tenhamos um vislumbre, uma fugidia percepção do que está para além dessa visão condicionada, há uma força que nos impele a não querer ver mais do que aquilo a que estamos habituados. É a força do conformismo, aquele estado preguiçoso de deixar estar o que está, aquela indolência de pensamento que nos impede de perscrutar a realidade que se nos apresenta, aquela letargia que envolve a nossa vida num mundo egoistamente cruel e em franca decadência.
Demasiado condicionados para poder ver sem esforço, demasiado preguiçosos para empreender esse esforço, demasiado egoístas e comodistas para fazermos algo, para ir mais fundo do que as meras aparências, do que as simples percepções superficiais, optamos pela via mais fácil: a de nos mantermos exactamente como estamos, de olhos fechados, recusando-nos a ver!
Se é mais fácil continuar a viver dentro da ordem estabelecida, porque carga de água haveríamos de querer mudá-la? Se é mais cómodo aceitar sem reservas e sem questões o que outros tomaram como certo, porque haveríamos nós de os contrariar? Se é mais prático que nos digam o que fazer, o que sentir, o que pensar, porque haveríamos de ter trabalho a fazê-lo de moto próprio?
E é precisamente esta atitude de uma ignorante e estonteante inacção que vai agravando os males do mundo, que são, afinal, os nossos próprios males! Porque não mexemos uma palha para nos tornarmos seres humanos conscientes, sensatos e maduros, estamos a contribuir, com o nosso decidido, inequívoco e estúpido dolce far niente, para o gigantesco agravamento das condições desfavoráveis ao florescimento de uma humanidade responsável e inteligente.
Somos lestos em criticar, rápidos em condenar, ligeiros em ajuizar, ágeis em denegrir mas extremamente lentos em construir, vagarosos em discernir, pachorrentos e frouxos na única acção que poderia mudar o mundo: o intento profundamente sério de nos vermos a nós próprios tal como somos e de olhar para a realidade com os olhos do verdadeiro discernimento!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Reflexão III

Vejo toda a gente preocupada! Preocupada com dinheiro! Vejo muita gente preocupada porque não vai poder manter o nível de vida! Mas, que raio é isso do nível de vida?
As necessidades básicas do ser humano são bem poucas. Tão poucas que se tivéssemos verdadeira consciência delas, só esse facto seria o suficiente para mudar o mundo! Mas não, não é isso que acontece. O que realmente nos preocupa são as férias que não vamos poder fazer, as viagens que não vão passar de sonhos, os modelitos que não vamos poder comprar, o carro que não vamos poder trocar, o ginásio que não vamos poder frequentar ... Quanta tolice! Quanta imaturidade!
Onde quer que vamos, para onde quer que olhemos, o mundo é um imenso poço de egoísmo, de irracionalidade, de violência, de violação e perversão do viver natural e criativo.
Basta ver as notícias na TV ou ler um jornal ou uma revista e tudo o que se destaca é anti-natural, é uma agressão constante à vida no seu mais amplo e lato sentido! As armas materializam a violência e os instintos mais primitivos do homem; o ludíbrio, a mentira e a corrupção são cada vez mais considerados como necessários e até como legítimos para a sobrevivência nesta Terra caótica! Enquanto milhares morrem de fome a cada segundo que passa, a grande maioria das pessoas dedica-se ao consumismo exacerbado e ao culto de uma vida fútil recheada de coisas e atitudes que são um verdadeiro atentado à condição humana! Até as crianças são educadas para acreditar que a competição, a luta, a conquista, são nobres virtudes a cultivar cegamente!
E esta imensa desordem, este caos crescente, chega por vezes a atingir o apogeu do ridículo com requintes de crueldade e de indiferença: enquanto uns morrem de fome, outros participam em concursos para ver quem come mais empadas ou mais hambúrgueres e consegue entrar para o Guiness. Ou então deliciam-se em requintadas orgias gourmet. Enquanto uns dormem na rua, num qualquer miserável e sujo rincão, com cama de papelão e mantas de jornais, outros, de nariz empinado e atitudes cabotinas, fazem questão de alardear a sua superioridade só porque vivem em luxuosos condomínios fechados!
Socialmente, as convulsões fazem-se sentir cada vez mais e é cada vez maior o fosso entre aqueles que tudo têm e aqueles que mal conseguem sobreviver; economicamente, os ricos são cada vez mais ricos e os pobres aumentam de número em todos os cantos do mundo; politicamente, os lobbies, a corrupção e os interesses de uma pequena minoria avançam, implacáveis e imparáveis, sobre um mundo cego, sobre um mundo amedrontado, ignorante e todavia crédulo na poderosa e destrutiva máquina política!
E no dia-a-dia, sujeito a toda esta pressão, vergado sob o peso esmagador de uma estrutura social, política e económica perigosamente doentia e degradante, o homem vai ficando reduzido a um ser amorfo de actividade programada e controlada.
Queremos viver num mundo assim? Queremos ser autómatos, marionetes cujos fios são inexoravelmente controlados por mãos alheias? Ou queremos olhar à nossa volta, olhar para dentro de nós e tomar verdadeira consciência da vida no seu todo?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Reflexão II

Cada vez mais a conduta individual correcta é necessária. A ordem instituída, a directriz seguida pelo ser humano ao longo dos séculos, tem incitado o ser humano a comportamentos colectivos, a acções em massa. A imponderação, o culto da imitação, que se reflecte em todas as áreas da vida, impede o pensamento individual, a análise individual, o autoconhecimento. A tendência é a cópia. A padronização, a metodologia,  a sistematização ditam os comportamentos. Toda a educação, aliás, é dirigida para uma automatização insensível da vida.
As regras estabelecidas, as próprias leis, conduzem o ser humano por uma via inflexível, inerte, cristalizada que é em tudo diferente da própria vida. A vida é mudança, nasce nova e fresca a cada instante, e não é passível de classificação e regulamentação. Cada aspecto da vida, cada manifestação, cada mutação é única. Como se pode, pois, sujeitá-la a regulamentos? Como é possível ordená-la,  qualificá-la e dividi-la em grupos, em classes, em ordens? Nega-se-lhe a sua qualidade criativa quando assim se procede. E vida é criação.
Se analisarmos a história do homem, recuando tanto quanto é possível aos olhos da ciência, a única constatação possível é que o ser humano não aprende com as provações, com as experiências. Insiste imbecilmente nos mesmos erros cometidos há milhares de anos, e não fora pelo avanço tecnológico, que é apreciável, continuar-se-ia na barbárie de há milénios atrás. Não é pois o avanço tecnológico o factor primordial para retirar o homem do seu estado básico, primitivo e bárbaro. Só a tomada de consciência individual o poderá fazer.
Se antes se matava com pedras, com espadas e com canhões, hoje mata-se com armas sofisticadas, com bombas e mísseis cirurgicamente direccionados, com estratégias infalíveis e mortíferas mal-usando a tecnologia. Se antes se conquistava e se oprimia com a força bruta, hoje conquistam-se mercados, oprimem-se povos em nome da economia  e da tecnologia. Se antes a sede de poder se expressava na voz terrível da violência, hoje esquece-se a violência da competitividade e até se incute desde tenras idades.
Quando se aprenderá? Quando cessará o culto do egoísmo colectivo? Quando se tomará consciência, consciência individual, da cruel e malévola infância que o homem vive? Quando se compreenderá que a mudança individual é a única via? Existirá alguma vez a coragem, em cada indivíduo, de por si mesmo e sozinho,  pôr cobro ao comportamento irreflectido e robotizado que o tem conduzido? Alguma vez o ser humano almejará a maturidade? Alguma vez verá que a única evolução viável consiste na transformação qualitativa individual?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Rotina

Ao domingo são os passeios, as caminhadas e as corridinhas. Ou os centros comerciais ou as grandes superfícies. Ao jantar são as notícias. As notícias diárias que estimulam sentimentos e emoções e que as estagnadas massas cinzentas das massas absorvem intensamente. Há que alimentar com sandices e absurdos os cérebros ressequidos. Muito mais do que a comida esquecida e arrefecida no prato, há que tomar o alimento mental, a injecção diária de comportamento e conduta estereotipados, o comprimido da imitação. Depois do jantar o café, a troca habitual de larachas, a disputa rotineira e oca sobre futebol. E amanhã será igual, e depois de amanhã, e depois de depois de depois de amanhã. Não importa o hábito que se tenha, o costume que se siga, a rotina que se leve, a tradição que se cumpra, o país em que se viva.

Ah, como se compartimenta e se mata a vida. Como se vai tentando, dia após dia, fazer dela um ritual. Disto ou daquilo, não importa. Como se vai reduzindo o seu sempre novo conteúdo a uma classificação inerte, restringida, limitada, inútil. Pouco a pouco, pedaço a pedaço, vai-se assassinando a vida. Vai-se assassinando o tempo. E quando o tempo é já escasso e da vida viva já nada sobra, encontra-se o próprio nada. Vai então desejar-se preenchê-lo. De coisas vivas desta vez, de coisas desiguais, inclassificadas, não catalogadas, únicas no tempo e no espaço. Mas porque se desperdiçou o tempo, porque se matou a vida, sobrará, perene e insatisfeito, apenas esse desejo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Reflexão I

A memória e a compreensão instantânea
Note-se que esta reflexão não é de todo um processo intelectual. O processo intelectual é um processo morto. Trata-se de uma reflexão viva que não usa os dados adquiridos, inertes e cristalizados que caracterizam o intelecto.
A memória é totalmente obsoleta no processo de compreensão instantânea.
Enquanto que todas as acções físicas, emocionais, sentimentais e mentais ficam impressas na memória e o seu registo pode ser consultado pelo exercício do esforço ou simplesmente porque uma circunstância interior ou exterior o despoletou, na compreensão instantânea o processo ocorre de uma forma muito diferente.
Imediatamente após a compreensão instantânea, que é um momento no presente, infinitamente curto mas imensamente poderoso, a sensação que se tem é que “algo aumentou e algo diminuiu”! A contradição é apenas aparente! “Algo aumentou” porque há a nítida sensação de uma consciência ampliada, há uma percepção de que o “espaço” da consciência ganhou amplitude, e “algo diminuiu” porque há, no mesmo instante, uma sensação de derrube de fronteiras, de bloqueios, há a percepção de um fluir mais livre da consciência e até do próprio pensamento, libertando-os do peso de obstáculos e outorgando-lhes maior liberdade.
Porém, o facto surpreendente é que, imediatamente após o processo acima descrito, e ao ser feito um esforço mental para recuperar os conteúdos daquela compreensão através da memória, descobrimos que eles não estão lá! Quaisquer que sejam os esforços empregues para reactivar e até dar continuidade àquela compreensão tão libertadora, o resultado é infrutífero: a memória não é definitivamente o fiel depositário da compreensão adquirida, do conhecimento adquirido! Esta é para mim a prova definitiva e irrefutável de que o verdadeiro conhecimento, a verdadeira compreensão, nunca foi e jamais será um processo intelectual!
Mas, então o que acontece àquilo que se compreendeu, àquilo que se conheceu, com tanta intensidade numa fracção tão ínfima de tempo? Porque não ficou registado na memória, perdeu-se? Não, de modo nenhum. O simples facto de se sentir nitidamente que a consciência foi ampliada constitui prova de que nada se perdeu! Esse conhecimento, essa compreensão, ficou registada, eternamente registada, a um nível cuja natureza (que não é física, não é material, não é mental) não é de todo semelhante à do processo intelectual e da memória; esse nível, chamemos-lhe assim à falta de uma palavra por enquanto melhor, não possui a característica individual que a memória possui, ou seja, eu sou capaz de recordar as minhas memórias mas não as dos meus semelhantes, o que significa que a memória é um reservatório separativo, individual, serve apenas os meus interesses. Ora, o nível da compreensão, do conhecimento, é completamente diferente: apesar de, tal como na memória, ficar registado, não é separativo mas intrinsecamente unificador! Os registos do conhecimento instantâneo podem ser acedidos e consultados, ao mesmo tempo, por todos os seres, em todos os lugares!
Concluindo, o processo de compreensão instantânea não é mais que, reunidas consciente ou inconscientemente as condições necessárias (e isto aqui é um processo demasiado exaustivo para o descrever agora!), um acesso ao depósito universal do conhecimento! Este acesso, ainda que parecendo individual, não o é! Na compreensão instantânea, não passa despercebida àquele que a tem, aquela qualidade de completude e totalidade, de abrangência e globalidade, em que o ego, a personalidade, a individualidade, não tem qualquer existência!
A memória é portanto o depósito individual, perecível dos conteúdos intelectuais e mentais e a compreensão instantânea é o acesso ao reservatório eterno, infinito e universal do conhecimento!

domingo, 3 de outubro de 2010

Outono

Entrou-me o Outono pela casa dentro. Insistentemente choveu nas janelas e ventou nos telhados. “Não te esqueças que eu também existo!” berrava ele nas rajadas de vento e nas bateladas de chuva.  “Previne-te, não queiras ser uma folha ainda verde arrancada prematuramente sem ter sequer chegado a amarelecer!” parecia dizer por entre as pausas da chuva e o breve serenar dos ventos.
E o meu coração ouviu-o. Ouviu-o e sentiu-o. Recordou os Outonos anteriores, preparações imprescindíveis para Invernos frios e letárgicos. Adormece a alma no Inverno. Prepara-se para isso no Outono. É preciso ficar em pousio. É preciso descansar da prodigalidade de Primavera e do tropel do Verão. É preciso morrer para voltar a nascer.
Segreda-me o Outono que devo deixar quieto o pensamento. Diz-me que devo esquecer  e deixar que o passado seja passado. Diz-me baixinho que me prepare, que cuide com carinho da chuva e do vento e do desconforto. Pede-me quase em sussurro que não me entristeça com o sol fraquinho do Inverno e com o quadro pardacento que ele pinta no mundo.
E eu obedeço-lhe. Todos os anos lhe obedeço. O seu ritmo é o meu ritmo, pois não sou eu filha da natureza? Então, aqueço a alma no alaranjado fim de tarde outonal, na luz rosada dos amanheceres já frios. E no Inverno remeto-me ao silêncio no sereno cinza plúmbeo que anuncia a tempestade antes da bonança.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Eles

Sinto-os dolorosamente no coração:
Minha mãe, meu filho, meu irmão.
Mas logo de rompante, de supetão,
Espelho-me neles
E eles são o que sou e todos são...

E a dor que antes sentia
Só por eles, eles que me são,
Súbita na sua mutação,
É a dor de todos os seres,
Conheça-os eu ou não.

Mesmo que essa estranha sensação
Seja a pobre inspiração
D’uma poetisa insípida e desencontrada,
Perdida, desnorteada e quiçá iludida,
Sou, para além da dúvida o que eles são,
E eles, talvez mesmo sem que o saibam,
São o próprio latir do meu coração.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rodopio

Inóspitas paisagens
Se desenrolam, insistentes,
Perante o meu olhar que deseja recusar-se a ver…
Mais bem miragens,
Ilusórias, incongruentes,
De uma rotina persistente
A rigor vestida de fantasia…
E no deserto árido da vida
Em que ela própria é porém o ser,
Nessa dor agudamente sentida
Desperto de novo,
Viçosa, fresca, renascida,
Num oásis verdejante de verdade,
Onde o nada é pleno saber
E a ilusão não tem guarida!
É aqui que quero ficar,
Insegura,
Talvez mesmo perdida,
Livre e despojada de amargura,
Porque assim insegura me reconheço,
Assim perdida me encontro,
Assim livre e despojada desvaneço
Num infinito rodopio sem conta nem medida.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ouvir

Não nos ouvimos! E isto é um facto.
Habituámo-nos de tal maneira ao ruído exterior, prestamos-lhe tamanha atenção, que esquecemos totalmente o nosso ruído interno, o borbulhar do corpo, o bater do coração, os sussurros da alma.
Ouvimos o ruído externo. E ouvimo-lo muito atentamente. As vozes de aclamação, os gritos de protesto, as declarações políticas, as narrações, os relatos e as invenções dos meios de comunicação, a publicidade, etc., etc.
Ouvimos as opiniões dos outros, ouvimos as nossas próprias convicções, ouvimos o que nos interessa e o que não nos interessa, e produzimos mais ruído ainda ao contestar, ao defender, ao apologizar, aom julgar, ao acusar. Enfim, entregamo-nos voluntariamente ao ruído que nos aturde e nem sequer nos apercebemos que esse aturdimento nos ensurdece.
Não ouvimos o nosso pensamento, que sentindo-se livre porque não é ouvido nem controlado, cavalga desenfreado e enche o mundo de disparates, de maldades. Não o ouvimos quando ele segreda sensatezes e não o ouvimos quando explode em absurdos.
Não ouvimos o corpo. Não ouvimos o seu movimento de máquina perfeita nem os pequenos ruídos que o seu funcionamento gera. Nunca o ouvimos. Atafulhamo-lo de porcarias, alimentos impróprias, substâncias tóxicas. Violentamo-lo com a violência do abuso, dos ritmos excessivos que o levam à exaustão. E quando ele pede socorro, através da indisposição, da dor, da doença, mil razões são apontadas para o problema, mil soluções apresentadas para a cura, mas nenhuma dessas razões é a razão que verdadeiramente o apoquenta nem nenhuma das soluções é a adequada ao seu problema.
Não ouvimos o coração. Não prestamos atenção ao seu bater. E vemos ódio onde há amor, vingança onde há boa-vontade, tristeza onde há alegria. Porque não o ouvimos, não sabemos nem dar nem receber. Porque ignoramos o seu suave palpitar ou o seu furioso galope, passamos pela vida sem compaixão e em constantes enganos, que é afinal o caminho trilhado por aqueles que, não sendo surdos, não querem ouvir.
Não ouvimos a alma. Essa então, cuja voz é tão suave e murmurada ainda que de infinita firmeza e verdade, nunca é ouvida. A essa calámo-la até antes que fale. Chamamos-lhe “a voz da consciência” e zombamos dela. Achamos que não tem realidade, que é totalmente obsoleta, e se por vezes falámos nela, ou é para lançarmos uma boa gargalhado à custa de quem nela acredita, ou para brincarmos um pouco à poesia e ao romantismo onde achamos que, palavras como essa, encaixam na perfeição.
Não queremos ouvir a alma, nem quando ela dói. Nem quando ela, no seu quase silêncio, nos pede aos gritos que a ouçamos; que lhe demos mais crédito a ela do que aos milhentos iluminados espertos, eruditos cartesianos, teóricos cristalizados e interesseiros argutos que inundam as nossas vidas com um ruído ensurdecedor, impedindo-nos de a ouvir.
Se alguma vez, por uma fracção de segundo que fosse, conseguíssemos eliminar o ruído exterior e nos permitíssemos prestar atenção ao ruído leve e suave de nós próprios, a nossa vida, a partir desse momento, jamais seria a mesma.

Semear

Qualquer atitude que tomemos, qualquer acção que façamos, tem indiscutivelmente a sua repercussão. A lei da causa e efeito aplica-se, sem excepção, a tudo na vida.
Semear significa fomentar, significa preparar o aparecimento de algo, disseminar, espalhar. Significa ser na verdadeira acepção da palavra porque o ser humano não é um compartimento estanque mas sim o somatório e o gerador da pluralidade.
É portanto indispensável que, ao pretender semear, tenhamos em consideração alguns pontos fundamentais:
- Há que semear com a consciência plena de que a colheita será sempre da mesma natureza da semente.
- Há que semear sem a expectativa de colher, porque contrariamente ao que se pensa, querer não é poder.
- Há que semear com o firme propósito de não interferir com as leis da natureza. Ela tem o seu papel e é, queiramos ou não, indiferente às opções humanas.
- Há que semear com o propósito firme e consciente de não prejudicar.
- Há que semear com inocência, com pureza, com altruísmo.
A semente assim lançada à terra germinará nas condições ideais, e nem a geada nem o vento furioso poderão impedir ou deteriorar a sua plena germinação e florescência.

domingo, 26 de setembro de 2010

Inquérito / Enquiry / Encuesta

Dear reader,
Would you like my posts originally in Portuguese to be translated into English? If you would please let me know.
Thank you.

Estimado lector,
Le gustaría que lo que publico en Portugués fuera traducido al Español? Si fuera el caso por favor dígamelo.
Gracias

Reflexão

Fiz recentemente cinquenta anos. Não que isso me preocupe do ponto de vista físico, mas num exercício analítico,  olhando para trás com o distanciamento sensato que a vida parece conferir, não posso deixar de lamentar as barbaridades que a ignorância de nós próprios nos faz cometer. Não se trata de arrependimento, trata-se de discernimento. Não se trata sequer de corroborar a frase batida do “se eu soubesse o que sei hoje”. Não, não é isso.  É, sim, a constatação do que é a evolução do ser humano.
O que outrora nos parecia correcto, a coisa certa a fazer, agora passados alguns anos, à luz do presente e do conhecimento que vamos tendo de nós mesmos,  parece não ter passado de uma acção insustentada, infundamentada, completamente errónea. Na ocasião tinha parecido lógica, coerente mas como podem as acções ser lógicas e coerentes quando apenas se tem delas um conhecimento pontual, ocasional, inserido somente nessa faixa de tempo?
As coisas não deixam de ser o que são pela nossa reacção. Elas são o que são e sempre serão o que são, ponto. As nossas reacções geralmente são um esforço inconsciente de mudar o que é, mas isso é uma impossibilidade. A nossa reacção nunca é isenta. Ela nasce do nosso próprio contexto de vida e a prova disso é que perante um mesmo acontecimento, cada um reage à sua maneira. A acção sem um conhecimento mais abrangente da causa e do efeito é apenas uma reacção baseada no condicionamento, no background de cada um, e o resultado só pode ser pura e simplesmente catastrófico!
Assim sendo, porquê reagir? O que aconteceria se em vez da acção, da reacção, a nossa inteligência nos conduzisse à inacção? O que aconteceria se permitíssemos que as coisas fossem o que são? Se não quiséssemos moldá-las, ajustá-las à nossa conveniência? O que aconteceria se a reacção psicológica não existisse? O que seria a vida de cada um se cada um permitisse que ela se desenrolasse naturalmente, sem necessidade de a modificar, de a moldar?
Coloca-se então a questão fundamental: como posso agir a partir de agora para que, dentro de dez ou vinte anos, não chegue à conclusão de que afinal não era bem assim, que no final de contas a lógica, a fundamentação não era essa?
Mudança, transformação, sim, mas em que moldes? E terá importância a lógica, a fundamentação particularizada? E o tempo, que papel desempenhará em tudo isto? Será que é factor de mudança? Ou será apenas uma ilusão, e tudo o que há existe perenemente aqui e agora? Será a falta dessa consciência que nos faz agir e reagir sem nexo, sem lógica, sem compaixão, numa tentativa vã de modelar a vida? Será a contextualização que nos impede de ver a perenidade?
Sejam quais forem as respostas individuais, porque a tendência é arranjarmos uma resposta e uma explicação para tudo, sem ao menos ponderarmos se estaremos na via correcta, alguma vez ousaremos aceitar as coisas como elas são, sem querer mudá-las?

sábado, 25 de setembro de 2010

Só, completamente só,
Tendo-me apenas a mim mesma por companhia,
Deixo que o rio da vida siga o seu curso,
Deixo que a água serena da verdade
Percorra cada canto do meu ser,
Cada espaço recôndito e obscuro
Que jamais ousei trazer à luz do dia…
Deixo que o canto das águas
No seu correr infinito e eterno
Me ajude a escutar
O pranto contido do sofrer…
Deixo que apague o inferno
De um vazio incompreendido
E que nutra o solo de um silêncio
Imenso que quero compreender…
Só, comigo mesma,
Num aparente penar,
De um estado amorfo e frio
Renasço como água, como rio,
E no leito do meu sentir
Que por instantes se volve sensível e terno
Descubro, dentro de mim
Toda uma vida todavia por nascer…

Centella

Por muy penoso
Que sea nuestro dolor,
El dolor que al final
Colma un mundo en llanto,
Fruto de nuestra propia creación,
Siempre habrá,
Guardada muy adentro
Como un secreto silencioso,
Allí, donde se cobija el amor
Y donde la vida destella
Su esplendor,
Una centella!
Y esa centella, en su fulgor,
Mantendrá siempre encendido
El brillo de la eternidad,
Que no es el de una distante estrella,
Sino el de la risa y del llanto
De quién busca
En la vida
El porqué de su existencia,
La música de su canto,
Su universal identidad!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Calma

Só quando me rodeio de calma,
E faço do silêncio e da imensidão
O lar da minha alma,
O meio do meu ser…
Só então vivo, só então vou,
Despojada de quereres,
Isenta de desejos e de quaisquer haveres,
Mera vertigem levada pelo muito do que não sou,
Ao encontro da liberdade.

E porque não me defino,
Navego no seu seio e entendo as marés.
Sei das fases da lua e dos ventos do norte,
Sei da divindade
E da semente em que germino,
Entendo os mundos e a verdade…

Afasto-me assim da sorte gerada pelo homem,
Imune ao mais ínfimo revés,
Porque o verso e o reverso
Da medalha que o homem tão bem engendrou
São farinha do mesmo saco,
São a própria ilusão, a própria falsidade,
Que sempre o alimentou…

Quando cesso de ser
Sou!
E neste findar está o início e o fim
Do que não principia nem acaba,
De tudo o que houve, há, e vai haver
P’ra além de mim!

Se a cabeça pensasse...

A cabeça não pensa. Não pensa que o seu prazer poderá ser a dor de outro, o seu capricho a desgraça de outro, o seu querer o sacrifício de outro. A cabeça não pensa no efeito das suas causas, na consequência dos seus actos, no resultado das suas extravagâncias.
A cabeça não pensa. Não pensa porque não sabe, mas está convencida que a sua ignorância é conhecimento. Está convencida que os seus actos, os seus disparates, as suas fantasias e imaginações são a realidade que sustenta a vida. Está convencida de que quem não é assim é aberração da natureza.
A cabeça não pensa. E de disparate em disparate, de fantasia em fantasia, de narcisismo em narcisismo a cabeça mirra, definha, seca, cristaliza. E o mundo mirra, definha, seca e cristaliza.
Se a cabeça pensasse…

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Silêncio e solidão

A sombra escondia-se do raiar da aurora. O silêncio instalado com o adormecer dos homens cobria ainda o mundo com o seu afago e eu, repousada por um sono no abraço condescendente da noite, abri a janela do meu horizonte e enchi os pulmões com o ar quedo e vivo do amanhecer.
Que longe pareciam as trevas de outrora que nem o sol fulgurante de um meio-dia quente e brilhante podia então iluminar. Despertei com a alma nua e por um instante quis agarrar o tempo e prendê-lo numa mão fechada, crispada até, tal era a vontade de romper o carácter efémero do momento. Silêncio e solidão.
Que medo têm os homens da solidão! E como temem o silêncio! Preferem a multidão controversa e antagónica à natureza pura e desnudada sem a presença de seres atribulados e em tonta correria. Preferem o ruído dissonante que eles próprios criam ao suave murmulhar das árvores e ao sussurro reconfortante da brisa que passa.
Depois sentem-se infelizes porque se sentem sós. E nem sequer se dão conta de que a infelicidade e a solidão só existem porque eles próprios se afastam deles mesmos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Só eu sei de mim

Quem vai compreender a dor que sinto?
A felicidade que me inebria?
Eles, que nada sabem de mim?
Eles que correm, feitos doidos, feitos cópia,
Em constante frenesim, atrás de um ideal absurdo
Que os faça deixar de ser assim para ser de outra maneira? 

Mas que inútil brincadeira, essa do devir.
Onde querem chegar afinal?
Onde pensam que podem ir se não sabem sequer o que os faz respirar?
Reagem sem pensar, vivem d’imitação,
Enganados, iludidos, vêem uma imagem original
Num espelho por demais repetido.
E veneram o logro, futuro de um presente irreal…
Vivem em segunda-mão: que quotidiano tão bem urdido!
Pena que não passe dum modelo instituído,
Mera projecção leviana de um insano colectivo…

Que lhes assista a coragem de deitar por terra
O que foi decidido, por vantagem, por conveniência;
Que se atrevam e se despojem no silêncio e no nada.
Talvez nessa nudez exposta encontrem a verdade…

Que não queiram galgar montanhas
E vencer obstáculos
Num caminho já traçado e gasto pelo arrastar dos séculos;
Que não queiram ser vencedores de metas alheias,
Títeres de políticas e ideias,
Seguidores de vãs filosofias,
Actores secundários d’estranhos espectáculos…

Que ousem ser o que são, sem destinos nem caminhos,
Que se atrevam a mudar de opinião
E saibam permanecer livres e sozinhos!
Que nessa solidão se deixem levar pelo eterno desafio da mudança,
E sejam como um rio que, num movimento sem fim
E embora tenha leito definido,
Jamais se impede de secar, de transbordar
Ou de fluir assim-assim!

Quem vai compreender a dor que sinto?
A felicidade que me inebria?
Só eu mesma sei de mim.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Diálogo da treta?

- Crítica?
- Só a auto-crítica.

- Moda?
- Desculpe?

- Pisca?
- Sinal luminoso que caiu em desuso.

- Prioridades?
- Egoísmo.

- Sinais exteriores de riqueza?
- Sinais exteriores de mediocridade.

- Comida gourmet?
- Cocktail de insulto e imbecilidade.

- Política?
- Brincar ao poder.

- Poder?
- Um brinquedo, como os carrões, as mansões, as posições, as relações, os piões, os balões, as colecções, as play-stations...

- Greve da fome?
- Isso afecta quem, mesmo?

- Greves em geral?
- O contrário da greve da fome mas com maior grau de estupidez.

- Originalidade?
- Onde? Aqui, no mundo da imitação?

- Sorriso?
- Actualmente? Demonstração egocêntrica.

- Informação?
- Manipulação.

- Globalização?
- Interesses pessoais em larga escala.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Finja-se

Pronto! Cheguei à triste conclusão que, hoje em dia, época marcante da decadência e da ignomínia, se houver quem não finja, esse será sem dúvida a excepção que faz a regra.
Hoje em dia, quanto mais complicado melhor, quanto mais complexo melhor, quanto menos pessoas entendam melhor, quanto mais obscura e mais vernácula seja a linguagem, o intento, o ideal, tanto melhor! Choca-se para se sentir a vida! Oculta-se e ornamenta-se. Fomenta-se o culto do absurdo para encobrir uma condição incapaz. Como se a vida fosse um  abanão intermitente e não uma continuidade serena, criativa e nutriente.
E percebe-se porquê. À falta da coisa natural, espontânea, pura, inocente e verdadeira, coisa essa que o homem, quer queira quer não, intrinsecamente é, à falta de uma criatividade e de uma sensibilidade incontestavelmente genuínas, há que inventar um tal emaranhado que apenas uma pequena minoria, que se autodenomina literaria, filosofica e intelectualmente iluminada, possa entender. Ficará assim salvaguardada a verdadeira ignorância, a fétida impureza e a plena incapacidade do homem que se edifica no logro de si mesmo.
Que finjam então, que se construam e se conduzam nessa ridícula contranaturalidade.
Eu fico de fora. Não vou por aí.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dancing

When I dance with the stars
Each movement I make
Is the movement of a soul
Which, being free, unattached and uncreated,
Is much more than nothing
But much less than the whole!

Lulled by the silence
At the sound of a million melodies,
And lulled by the breath of life
In the soft breeze of eternity,
Quiet, inebriated,
I indulge in an ever unfinished dance…

Extraordinary ride

I am one lost soul
Desperately holding on to unrealities
Though I know the real thing is right here,
At the single reach of my own hand.

And darkness seems to be a goal
Fed by illusions, by proven impossibilities,
Driven by an absurd fear,
Dangerous like moving sand.

But as quietness and peace appear
From some unknown place inside,
Bore beyond mi knowledge and sight,

When my soul is finally rested and clear,
I take the most extraordinary ride
To the limitless realm of pure light!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Não brinco mais a isso

Acabou-se. Não quero brincar mais. Não quero mentir-te porque me minto. Não quero enganar-te porque me engano. Não quero iludir-te porque me iludo.

Não quero brincar mais às casinhas porque não sei onde é a minha casa. Não quero brincar aos carrinhos porque quero saber para onde vou sem me importar como.

Não quero brincar aos futebóis, nem às modas, nem às últimas tecnologias; se o fizer não passarei de uma bola arremessada ao acaso, de uma cópia plasmada, de um autómato imitativo programado para carregar em teclas e botões.

Não quero mais brincar às políticas porque serei escrava do interesse e magoar-te-ei em nome de um ideal que nem sequer professo. Não quero brincar às religiões porque os deuses são criações tuas e deles e não as quero para mim.

Não quero brincar aos amores, aos ciúmes e às invejas porque não quero amar as imagens que faço de ti, nem quero enciumar-me porque o sentimento não é exclusivo, e nem sequer invejar quem pensa que ama.

N
ão quero brincar mais aos críticos nem aos juízes, porque se te critico fecho os olhos ao meu preconceito e se te  julgo deixo soltos e ignorados por esse mundo fora os meus vis defeitos.

Não quero brincar mais às competições, nem às rivalidades nem às posições. Poderei ser melhor do que tu nisto ou naquilo mas por certo sou cem vezes pior e mais mesquinha em tantas outras; e serão os antagonismos e as posições que nos conferem autenticidade e carácter?

Não quero brincar mais à tolerância, à fraternidade e à solidariedade, porque ainda não aniquilei o meu egoísmo, ainda não me desfiz de interesses egocêntricos, ainda não tomei consciência de que não sou superior a ti.

Afinal, ainda não me conheço; como haveria pois de ousar pretender conhecer-te a ti?

Não quero brincar mais a nada disso. Agora quero ser um ser sério! A sério!

Vazio

Este vazio tão pleno
Q
ue me queima por dentro
D
ói tanto, tanto, tanto
Q
ue tamanha dor nem chega a ferir!
É
antes como se algo nascesse
A
cada momento,
C
omo se algo novo e vivo florescesse
S
em qualquer premeditado intento,
P
ronto a eclodir,
A
servir de alento ao meu viver!

E
de tão intensamente que o sinto
N
ão chego a saber
S
e sou o que pressinto
O
u apenas aquilo que julgo compreender…
T
al como a flor do absinto
C
om o seu sabor amargo,
Q
ue se transforma em licor adocicado,
A
ssim eu, de um apagado e insípido estado de ser,
M
e torno um rebento,
P
ujante e renovado,
Q
ue apenas esse insaciado vazio
P
ode fazer crescer!
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